terça-feira, 15 de dezembro de 2009

pera

nos casos de brigas leves, não há nada que uma frase como tira pra mim a casca em volta do pão não resolva. mas quando a questão é bem mais grave, densa e resistente, só há duas soluções: o tempo e a pergunta: vamos tomar um sorvete de chokissimo com pera na vipiteno?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

não

vi um urso de pelúcia largado sobre uma cômoda velha, dentro de um apartamento cansado, enquanto passava de carro pelo minhocão. vi quadros de algum artesão frustrado, pendurados do lado de fora do apartamento, ainda passando pelo minhocão. vi a maria bethania cantando lindamente, falando de amor, festa e devoção. vi meus alunos falando do mito de perséfone e de evita perón, dos buddenbrook, do sagrado e do profano. vi uma nutricionista falando de alimentação enteral e parenteral e vi como ela cuida dos seus pacientes e se preocupa para que eles fiquem bons. mas não vi a nina, não vi a nina e só sei isso.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

porcelana

bruce chatwin, um escritor historiador, no livro utz, fala de um colecionador tcheco de raras porcelanas da alemanha. o colecionador percebe nas porcelanas simulacros de golems, figuras feitas de argila que podem adquirir vida, ou que praticamente ja possuem vida, dependendo somente de algumas palavras secretas para que isso ocorra. os colecionadores sempre escondem aspectos estranhos da personalidade humana. parece que guardam em si segredos e idiossincrasias que o restante da humanidade tem vergonha ou dificuldade de conhecer. tenho uma curiosidade amorosa por eles e tambem adoro colecionar. coleciono ninhos, pequenos objetos, cacarecos, brinquedos. parece que, colecionando, guardamos algo repetido mas irrepetivel da passagem do tempo, que fica mergulhado ali, no objeto, retirado da realidade, do seu contexto, morto, mas por isso mesmo secretamente disposto a uma nova forma de vida, cujo nome talvez somente o colecionador saiba.

domingo, 6 de dezembro de 2009

nina

sacrificamos e cremamos a nina, nosso anjo, nossa gata. gosto da palavra sacrifício e da cremação, porque me lembra que, no sacrifício, os animais eram entregues aos deuses, que se alimentam do perfume exalado na fumaça. que a fumaça da nina alimente o ar e os deuses, como ela nos alimentou de alegria e coragem durante toda sua vida.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

orelha

depois de ter entrevistado o philip roth e ele ter feito com que eu me sentisse como uma adolescente lobotomizada e fã da victoria beckham, pela fleugma com que ele respondia a tudo e pela certeza incontornável dos seus nãos, fiquei vagando por nova iorque como uma zumbi boba. primeiro, entrei na takashimaia, uma loja de departamentos japonesa caríssima e com as coisas absolutamente mais lindas que eu já vi, fui ao salão de chá e pedi um chá com biscoitos de cinquenta dólares. tomei o chá como uma lady, mas não foi o suficiente para me recuperar. saí de lá e, subitamente, encontrei a solução. entrei numa loja da disney e comprei um dumbo. pronto, me curei da fúria incansável da genialidade e me amparei nas orelhas burras de um velho amigo legal.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

amor

como é possível ainda encontrar definições inesperadas do amor, depois de quatro mil anos de literatura? o david grossman me (nos) presenteou com isso: alguém com quem estar calado.