domingo, 17 de janeiro de 2010

dignidade

no lugar da decência, ou da respeitabilidade, prefiro a dignidade. a dignidade não impede que a pessoa seja também selvagem. ao contrário, é possível conciliar muito bem as duas coisas, ao passo que decência implica domesticação. decência tem a ver com cabimento; é uma adaptação certa do comportamento. já a dignidade pode ser fruto de atitudes totalmente descabidas e equivocadas, inclusive desobedientes.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

paisagem

tenho muita vergonha de confessar, mas não sei apreciar paisagens: não consigo ficar horas olhando as montanhas, o mar, uma pedra. sinto que tenho uma dívida para com meu sentido visual e também para com a natureza. deveria saber olhar, extrair ideias ou então simplesmente nada. me deixar estar junto às coisas que são só as coisas. mas daí começo a pensar que elas são só as coisas e como é bonito ser só isso e daí já fui embora. estou sempre indo embora para as palavras. elas é que são minha paisagem, minha natureza e adoro ficar olhando para a palavra mar, a palavra montanha, a palavra pedra.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

elevador

dentro da própria cidade, esquecemos de nossa desimportância. tudo é tão sincronizado, funcional e articulado, que parece ter sido feito precisamente para nós. a cidade é uma grande máquina que existe para nos servir. quando saímos um pouco, percebemos enfim toda a armação narcísica: tudo falta ou sobra, a cidade é totalmente autônoma e ninguém nos olha nem entende; nem o cobrador de ônibus, nem o garçom, nem o vizinho. daí então vem uma pequena compreensão de como ser um ascensorista de um velho elevador na plaza de mayo é a mesmíssima coisa que ser um escritor reconhecido em seu país; tanto na sua grandeza como na sua pequenez.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

azul

não acredito em anjos, em alma, em espírito. mas apareceu uma gata na rua. branquinha e marrom, olhos azul celeste e uma pinta no nariz. está aqui comigo e resolvi que foi a nina que quis assim. eu só acredito que se acredita no que se quer; acredito na vontade e na fabulação. e fabulei assim.

sábado, 9 de janeiro de 2010

espanto

ontem vi dois hipopótamos dormindo um ao lado do outro; vi bem de perto os olhos de uma lhama; vi a grossura interminável do diâmetro de uma jibóia. depois vi muitos quadros do pintor argentino xul solar. e fiquei sem saber, agradecida, se o espanto é maior diante dos hipopótamos ou do porto azul e dos homens-avião de xul solar. que bom.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

cruzamento

enquanto eu procurava no mapa a localização da calle florida, uma das mais movimentadas e certamente horríveis ruas de buenos aires, um homem com aparência de índio sulamericano dormia profundamente, encostado numa porta de garagem. era cerca de meio-dia. sua cabeça pendia de um lado para o outro e ele não acordava, mesmo com toda a movimentação em sua volta. cruzamos milhares de pessoas todos os dias, observamos algumas delas e nem olhamos para a maioria. mas esse homem ficou marcado em mim. seu semblante, mesmo dormindo, indicava que ele tinha sofrido muito durante a manhã, provavelmente procurado vários empregos. consegui ver isso e acho que não estou glamourizando sua pobreza, simplesmente porque ele era um índio dormindo na calçada. o que me surpreendeu foi que estávamos no mesmo tempo, no mesmo espaço, em mundos totalmente diferentes. eu nunca mais vou vê-lo nem ele a mim. fui à florida, detestei, veio a noite, jantei, dormi e é ele que não me sai da cabeça. não quero nem vou fazer nada por ele e não é isso o que ficou fixado. é o cruzamento inadvertido de histórias se raspando impossivelmente. sei lá de que montanhas peruanas seus ascendentes vieram; sei que os meus vieram de absurdos urais. e naquele momento, os andes e os urais se encontraram por uma fração. não houve terremoto, o tempo não parou. tudo seguiu. como? por quê? onde está você, que dormia na praça general san martín? onde está aquela que procurava a localização no mapa?

domingo, 3 de janeiro de 2010

velhice

do misterioso e genial bruno schulz, um kafka ainda desconhecido e por isso mesmo ainda mais kafka: amadurecer até a infância. tenho certeza de que essa é a maior sabedoria da velhice. não ser uma criança, mas uma criança que passou pela maturidade, pela possibilidade grande de não ser criança e escolheu ser.