domingo, 14 de fevereiro de 2010
asas
emily dickinson não era a melhor de todas. é muito pouco falar assim dela. ela não se presta a julgamentos e comparações. cada poema está acima do que nosso juízo pobre é capaz de parcamente conhecer. e quando ela diz: "uma vaga capacidade para asas degrada o vestido que uso", eu agradeço a ela e às palavras por me dizerem isso e me contarem o que sou.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
falta
somos aqui em casa três gatos e três cachorros. o pingo, o david e eu atacamos o outro de estabanação, afeto e burrice. sobramos. a mia, a leda e o joão ficam num lugar aquém do ataque. escondem-se discretos, para um bote inofensivo, mas bote. não sobram, faltam. agora minha outra sobra também viajou e então sinto falta da sobra e da falta. fico aqui de cachorro bobo, sem ter a quem derrubar com meu estabano. só o açucareiro, o jornal e a panela. puxa vida.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
complicação
eu costumava ser bem mais complicada do que sou agora. mas, estranhamente, muitas vezes sinto falta dessa complicação. quero pensamentos intrincados, achar tudo mais difícil e não consigo. a realidade resiste e só quer me parecer simples. não que não haja dificuldades, ao contrário, elas existem e são grandes. mas pouca coisa me soa inexpugnável ou tão embaraçada a ponto de eu não conseguir nem compreender. não sei se isso é um mal ou um bem da aproximação da velhice. sei que agora, agora mesmo, queria pensar alguma coisa bem difícil, que nem eu mesma conseguisse entender, alguma coisa emaranhada, cheia de palavras confusas, mas só me vêm ideias simples à cabeça. deveria achar isso uma bênção, mas, nesse momento, me entristece compreender as coisas.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
sonho
sonhei que vi uma letra j jogada na rua e que escrevi um post, em meu blog, sobre ela. eu desenhei todo o alfabeto com letras grossas, preenchi as letras com muitos desenhos bonitos e ressaltei aquela letra j , que tinha encontrado na rua. o desenho ficou meio infantil, meio gráfico. nos comentários, as pessoas começaram a se esgoelar para comprar aquela letra, como se fosse um leilão, um rabiscava o comentário do outro, até que ganhou um lance de trezentos mil dólares. não fiz os desenhos fora do sonho, nem saberia fazê-los, mas se quiserem comprar, até por outro valor, posso vender um pedaço de sonho.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
gênio
ontem, cantarolando a canção "qualquer coisa", me dei conta de que nela, rimam as palavras "apanhe" e "mamãe". "quero que você ganhe, que você me apanhe, sou o seu bezerro gritando mamãe." logo depois, numa conversa, fiquei sabendo dos manifestos jóia e qualquer coisa, em que caetano veloso defende com a mesma contundência a precisão do ourives e o relaxamento expansivo. e mais uma vez, então, me senti mais livre por reconhecer a genialidade de caetano e por saber que ele está muito vivo e entre nós. não é um reconhecimento reverencial, ou é também; mas é algo mais. o gênio é aquele que reúne potencialidades esparsas; junta paradigma e sintagma, a latência e potência, numa mesma liga forte e duradoura. caetano, quer namorar comigo?
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
avó
na polônia, minha avó se considerava uma intelectual, por ser muito estudiosa, embora fosse de origem bem humilde. achava que o ídish era uma língua vulgar e, desde muito nova se dedicou como auto-didata ao estudo do hebraico, língua erudita e sagrada. aqui no brasil ela continuou os estudos, até dominar toda a gramática, a nomenclatura, as citações bíblicas. nós conversávamos, porque eu estudava hebraico na escola e ela se sentia envaidecida por perceber que falava até melhor do que eu. na primeira vez que ela foi para israel, carregada de expectativas, frustrou-se terrivelmente. ela falava tão bem, que ninguém se surpreendeu com isso. ao contrário, tratavam-na normalmente, como uma israelense. e o que é pior, todo mundo falava hebraico: os motoristas de ônibus, os encanadores, os eletricistas. que língua chucra é essa em que se pode falar "a válvula quebrou", de modo tão natural?
sábado, 30 de janeiro de 2010
selo
a leda foi embora e ficou, logo no primeiro dia, a presença física da ausência dela. dá para sentir melhor o tamanho pequeno, a ocupação no espaço, os barulhinhos dos passos na escada, a chegada dela na cama para se aninhar ao meu lado. ouço todo o silêncio dela e ele ocupa alguns lugares marcados. um dia é como um selo estampado de uma nostalgia que ainda virá. a experiência prévia de uma saudade que ainda não deu tempo de chegar, mas que eu vejo caminhando lá longe, no horizonte, em minha direção.
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