segunda-feira, 1 de março de 2010

alma

roland barthes conta que, ainda no século XIX, michelet foi despedido de seu cargo como professor do collége de france, onde o próprio barthes lecionou. na sua despedida, os alunos, para tentar consolá-lo, lhe disseram: "professor, o senhor não nos ensinou nada. somente nossa alma é que voltou para o seu lugar". barthes usa isso como um exemplo do que ele chama de "desaprender". era essa a educação que ele praticava. não ensinar, mas aprender a desver as coisas do mesmo jeito (e não aprender a ver as coisas de outro jeito). ensinar não tem mesmo a ver com o quê, mas com o como. o "quê" do ensino, quando é inteiro, é também um "como". quando se está junto de um professor como barthes, uma professora como eu fico pequena, embora tudo na sua prática seja contra essa comparação. é um professor que ama o tempo todo. ama o erro, ama a fala, ama a falta. minha alma, ao lê-lo, sempre caminha para mais perto de seu lugar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

integridade

um índice seguro de que se chegou à decadência completa de qualquer integridade mental, é se flagrar cantando distraidamente a musiquinha da seguradora.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

sonho

se existe algo como o inconsciente mesmo e se ele realmente produz nossos sonhos, então o meu tem um potencial criativo bem maior do que a minha suposta consciência ou vigília. sonhei que um grupo de pessoas que eu não conheço estava sentado conversando. de repente, eles pararam de falar. nisso, um dos participantes do grupo olhou para cima, apontou e disse: ei, você, que está nos sonhando, pode continuar a sonhar?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

envelope

recebi um envelope contendo um contrato de cessão de direitos autorais. um papel colado sobre o envelope diz: "três vias do contrato para assinatura do cedente e do interveniente anuente". no caso, eu sou a interveniente anuente. fico me imaginando assim: intervenho, incomodo, mas, no fim, aceito. é isso mesmo. é só a isso que se resume a burocracia. mesmo quando somos intervenientes, ao fim a ao cabo, acabamos sendo anuentes.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

flor

depois de sessenta anos, minha mãe voltou para budapeste com as três filhas. estávamos passeando por uma avenida importante, quando ela parou, arrancou uma flor de um canteiro, tirou a haste da flor e soprou: a flor fez um barulhinho, como o de um apito. era uma brincadeira que ela fazia quando pequena. e ficamos nós três, arregaladas, olhando minha mãe ser pequena outra vez.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

conselho

acho que alguma maturidade me permite dar um conselho: nunca namorem alguém que diga: "ó, vamos fazer silêncio agora. escuta só o baixo."

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

amor

a tradução impossível do poema do rené char, "l'amour/ l'être/ le premier venu" pode ser: "o amor/ser/a primeira chegada". não importa a impossibilidade da tradução, porque ela o torna ainda mais intocável na sua precisão. mas não importa de verdade porque, independentemente da tradução, o amor é mesmo, em sua condição infinitiva, a primeira chegada, ou mais, a primeira vinda. se amamos, quando amamos, o objeto de nosso amor acabou de chegar e nós o olhamos, surpresos: de onde você surgiu? (agradeço à leda pela menção ao poema).