terça-feira, 16 de março de 2010

fundo

mia, se o fundo azul dos teus olhos não fosse rajado, eu não veria as ondas do mar, as nuvens no céu e não haveria a tristeza que faz com que a tua alegria seja ainda mais linda.

sexta-feira, 12 de março de 2010

caderno

encontrado em um caderno antigo, mas totalmente endossado até hoje: "não quero: nortear, implantar, expandir, agilizar, otimizar, flexibilizar, elaborar, explicitar, encaminhar, sinalizar, inserir, documentar, resgatar, socializar, formular, problematizar, articular, despertar, contemplar, capacitar, multiplicar, habilitar, planejar, intervir, gerir, formalizar, efetivar, promover, reavaliar, segmentar, funcionalizar, objetivar, efetuar, institucionalizar, setorizar, vincular, equacionar, favorecer, apreender, potencializar, conceitualizar, requerer, solicitar, enfatizar, destacar, realçar, finalizar, inicializar, complementar, mapear, tematizar."

quinta-feira, 11 de março de 2010

oração

na letra c do fabuloso alfabeto de paul valéry, ele diz: "é por isso que não se deve orar senão com palavras desconhecidas. devolvei o enigma ao enigma, enigma por enigma. elevai o que é mistério em vós ao que é mistério em si. há em vós algo que é igual ao que vos ultrapassa". na oração, não se sabe o que se ora, nem por que, nem para quem, sob pena de que, com alguma finalidade, a oração se torne também ela um meio. a oração é puramente a permissão de que algum enigma saia e penetre no corpo, pela voz. é a pausa ou o silêncio feito com palavras. não é preciso compreendê-las, como elias canetti em marrakech, que se comprazia em não compreender o que diziam os marroquinos. há oração como essas vozes?

quarta-feira, 10 de março de 2010

endereço

vou criar a categoria do metapost. metapost: quando um post comenta um comentário de outro post. escrevi sobre a aventura com a semolina e o restaurante arábia comentou, me mandando exatamente a receita do doce que eu queria fazer. imagino o post girando em circunvoluções pelas entranhas da internet, a semolina se pulverizando pelas fibras invisíveis, até chegar num endereço que era o que eu queria, mas que sequer tinha imaginado.

segunda-feira, 8 de março de 2010

semolina

quis fazer doce de semolina igual ao do restaurante árabe. fui até o pão de açúcar aqui perto. não tinha semolina e ninguém sabia o que era. descobri que em um pão de açúcar não tão perto, eles tinham oito unidades. decidi ir até lá. demorei uma hora e meia porque era horário de rush, tinha muito trânsito e eu me perdi toda num dos bairros que eu mais detesto em são paulo. mesmo assim, sentia que atingir aquela farinha era como uma caçada inútil e necessária no meio de tantos carros e obrigações. cheguei lá e a semolina já estava me esperando na frente dos caixas. o pacote estava furado e a farinha vazou por toda aquela área do supermercado. peguei outro. demorei mais quarenta minutos para voltar, cheguei em casa e logo percebi que a receita era ruim. além disso, eu não tinha fermento para o doce nem limão para a calda. fiz o doce, que ficou horrível e a calda, que queimou. mais uma vez me senti idiota, como se o gozo da caçada inútil fosse um luxo para caprichosos ou ociosos bobos. mesmo assim, no dia seguinte, tentei de novo, com outra receita. deu certo e já me sinto disposta a muitas procuras inúteis novamente.

sábado, 6 de março de 2010

jeito

para dizer de jeito nenhum, dizia "de deto dedum". para dizer música, dizia "múcuna". para dizer mickey mouse, dizia "mickey nonatch". para dizer copo, dizia "póco". agora diz tudo certo, mas sempre de um jeito que só ela sabe dizer.

quinta-feira, 4 de março de 2010

lembrança

hoje me lembrei que, em vez de dizer "quer queira quer não", meu pai dizia "quer quer quer não". achei muito mais bonito e me deu muita saudade.