sábado, 27 de março de 2010
interfone
o interfone e o telefone quebraram. vieram hoje aqui em casa o reis e o josiel. ficaram amigos imediatamente, mal o josiel passou pelo portão. já compartilhavam o mesmo léxico de fases, fios, cabos de pontas azuis e vermelhas. o problema do josiel era mais simples. veio, arrumou, tentou me explicar o problema e eu não entendi nada. foi embora e nem queria cobrar. saiu e o reis chegou para mim e disse: legal ele, né? o reis ainda ficou três horas e fuxicou tudo até encontrar a origem da má ligação do interfone. disse: podia ficar aqui dez dias, mas não ia desistir. comigo é assim. vou até o fim. ficamos eu e ele muito contentes porque o interfone finalmente funcionava depois de dois meses. antes de ir embora, ele ainda falou: legal aqui, né? legais esses tijolinhos. legal também o moço da banca que me explicou como chegava aqui. ele foi descendo pela rua e eu fiquei parada, pensando: bom dia, reis!
sexta-feira, 26 de março de 2010
quarta-feira
anteontem fui até quarta-feira. não é longe. fica aqui mesmo. começa na minha rua e se estende por todos os bairros. lá é muito tranquilo. tem cinemas vazios, a preços baixos, as ruas são todas silenciosas e, nos restaurantes, não há espera. o trânsito flui. é uma cidade calma e agradável, quase idêntica a são paulo, mas sem os seus problemas. decidi que agora quero ir todas as semanas a quarta-feira.
terça-feira, 23 de março de 2010
habilidade
nhinhinha, de "a menina de lá", de guimarães rosa, era "inábil como uma flor". por que a flor é inábil? porque a flor, cuja maior habilidade é ser bela, cumpre sua finalidade com tanta gratuidade e excesso, que acaba redundando na própria morte. a flor, de tão bela, é breve. se fosse hábil, distribuiria a beleza com economia e duraria mais. mas é só por sua inabilidade que ela é tão assustadoramente bela.
domingo, 21 de março de 2010
safári
eu tinha doze anos e ele quatorze. estávamos apaixonados, mas ele era muito sério. era o líder intelectual da turma, já conhecia o pensamento de esquerda e, por isso, apaixonar-se era um pouco burguês. não demonstrava muito afeto e carinho em público, nem pensar. eu me ressentia disso. um dia ele apareceu de conjuntinho safári. não dava, eu não conseguia nem dar a mão. ele não entendeu nada; se sentiu rejeitado. foi minha vingança burguesa. safári não dá.
quinta-feira, 18 de março de 2010
bobeira
estamos sozinhos em casa e precisamos decidir se vamos viver como dois velhinhos aposentados avacalhados ou chiques. na primeira opção, assistir bbb. na segunda, escutar ópera. na nenhuma das anteriores, falar bobeira horas e horas seguidas.
terça-feira, 16 de março de 2010
fundo
mia, se o fundo azul dos teus olhos não fosse rajado, eu não veria as ondas do mar, as nuvens no céu e não haveria a tristeza que faz com que a tua alegria seja ainda mais linda.
sexta-feira, 12 de março de 2010
caderno
encontrado em um caderno antigo, mas totalmente endossado até hoje: "não quero: nortear, implantar, expandir, agilizar, otimizar, flexibilizar, elaborar, explicitar, encaminhar, sinalizar, inserir, documentar, resgatar, socializar, formular, problematizar, articular, despertar, contemplar, capacitar, multiplicar, habilitar, planejar, intervir, gerir, formalizar, efetivar, promover, reavaliar, segmentar, funcionalizar, objetivar, efetuar, institucionalizar, setorizar, vincular, equacionar, favorecer, apreender, potencializar, conceitualizar, requerer, solicitar, enfatizar, destacar, realçar, finalizar, inicializar, complementar, mapear, tematizar."
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