quarta-feira, 14 de abril de 2010
fechadura
cheguei em nova iorque às onze e meia da noite, num inverno de rachar, e, no táxi, percebi que só tinha o nome da rua onde iria me hospedar, não o número do prédio. tinha também a chave da porta. o motorista não quis nem saber de me aguardar, nem de me levar até um telefone público, onde eu pudesse ligar para uma amiga que saberia me dizer o número. fui arrastando minha mala na neve até um telefone, liguei e ela não atendia. fui voltando para a rua e ainda parei alguém para pedir ajuda, mas a pessoa respondeu que não tinha trocado para me dar. voltei até a rua, deserta àquela hora da noite e comecei, arrastando a mala, a testar todas as portas de todos os prédios, dos dois lados da rua. depois de não mais do que vinte tentativas, uma porta abriu. era aquela. cinco anos mais tarde, eu defenderia meu mestrado com o título: "trouxeste a chave?". sim, esta eu sempre costumo levar. o problema é a fechadura.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
harpa
o paulo miranda e o omar khoury são duas pessoas que encaminham minha alma direto para a sua morada. fico com eles algumas horas, vejo que eles são como os anjos gabriel e azrael brigando, tirando um a harpa do outro, ocupando o melhor espaço na nuvem e falando:"foi pra portugal, perdeu o lugar!", e sei que estou com o melhor que alguém pode querer ser. daí minha alma fica restaurada e agradecida.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
dúvida
quando eu era pequena, tinha uma dúvida grave: se alguém me perguntasse "você não acha?" e eu respondesse "sim", então queria dizer que eu acho ou que eu não acho?
quinta-feira, 8 de abril de 2010
trânsito
no trânsito das oito e meia da manhã, abriu uma clareira. nenhum carro à frente, atrás, nada. chovia uma chuva fina, boa. tocava uma canção de voz e violão simples no rádio. a menina passou com meia calça roxa, guarda-chuva meio estropiado, cabelos ruivos, saia de flores. de dentro do tempo, uma seta, um respingo do instantâneo saltou para fora. foi mesmo só um instante, mas que ele saltou, saltou.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
foto
como são lindas estas fotos do passado, em que olhamos nossos próprios olhos de antes com os de agora. ouvimos aqueles olhos dizendo que o futuro pouco importava, olhando para o presente com expressão de harmonia, ao mesmo tempo em que os olhos de agora sorriem com respeito, saudades e como que dizendo: "eu estou agora, aqui onde você não pensava que estaria. e posso vê-lo, a você (ou a mim mesmo), enquanto você não podia."
sábado, 3 de abril de 2010
fiscal
meu pai chegou ao brasil em mil novecentos e quarenta e nove sem falar uma só palavra de português, só com o curso primário e sem profissão. resolveu vender roupas de porta em porta. levava uma maleta e caminhava por bairros como o brás, a móoca, batia palmas e mostrava as mercadorias. depois do almoço, dormia embaixo de uma árvore. uma vez um fiscal o acordou e levou sua mala. juro que até hoje eu tenho vontade de pegar esse fiscal e dizer uma boas verdades para ele.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
gilberto
meu vizinho pipoqueiro era o melhor, e talvez o único amigo do gilberto, o guardador da casa da frente. o gilberto praticamente não dormia e mal comia. ficava andando pela rua o dia inteiro e, à noite, saía para beber. voltava descendo a rua, gritando, batendo palmas, brincando com seu adálio, fazendo locuções de jogos de futebol imaginários e berrando sem parar: "é nóis!". ontem ele foi encontrado morto na casa de uma sobrinha. tinha trinta e seis anos, quatro filhos e uma ex-mulher. o pipoqueiro foi ao enterro e contou que lá, o pai-de-santo que o gilberto frequentava, levou uma garrafa de pinga e colocou dentro do túmulo. o pipoqueiro disse: "se fosse com minha família, eu dava com a garrafa na fuça dele!". eu não. aprovei o pai-de-santo. o gilberto morreu acompanhado.
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