quinta-feira, 13 de maio de 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

lembrança

lembrar-se é buscar uma lembrança no passado, de forma localizada e é também o momento em que uma lembrança súbita retorna à superfície da memória. se quero me lembrar de alguma coisa, como um nome ou um lugar, aciono uma cadeia de associações. por exemplo, para lembrar o nome da scarlet johansson, lembro de scarlet o'hara e do músico kevin johanssen. esse processo, inevitavelmente, causa encadeamentos esdrúxulos, às vezes inexplicavelmente com a mesma pessoa ou rua, como o hábito que tenho de chamar a kathleen turner de catherine o'connoly. já com relação às lembranças súbitas, que assomam sozinhas à memória, sem necessidade de serem evocadas, não sei por que, mas toda hora me lembro de mim mesma pequena, dentro de um elevador, com um primo muito alto de minha mãe, que vinha dos estados unidos, trabalhava na nasa, e que, por essa razão, eu achava que era um astronauta. minha emoção e curiosidade foram tamanhas que, agora, quarenta anos depois, lembro pelo menos uma vez por semana, sem querer, de que andei de elevador com um astronauta. sem falar de que também lembro do gosto da esfiha com zahtar do farabud e do david pequeno colocando sozinho a chupeta na boca, para ver se parava de chorar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

corinthians

aqui tem um bando de louco. somos isso e isso ninguém tasca. vimos primeiro.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

salsicha

meu pai já estava muito doente. era dia dos pais. comprei flores e salsichas. cheguei até ele, que já quase não falava, e entreguei as flores. ele disse o que eu já sabia: prefiro salsichas. eu já tinha as salsichas. dei um monte para ele. ele sorriu.

terça-feira, 4 de maio de 2010

terra

hoje, durante uma aula, pela primeira vez, me dei conta de que a terra do pai é a pátria e de que a língua nativa é materna. é verdade. nada mais maternal do que a língua, esse colo continente e conteúdo, com uma prontidão entre sufocante e libertadora. e nada mais paternal do que o lugar. mudo e certo, ele nos pede para ficar. muitas vezes, é por isso que queremos sair. já a mãe, nossa língua, falante e insegura, está sempre a nos acompanhar.

sábado, 1 de maio de 2010

coisa

uma coisa linda é qualquer suíte para violoncelo do bach; uma coisa boa é a abobrinha recheada com carne moída da benedito calixto; uma coisa feia é laquê; uma coisa ridícula é escrever melhor do que o livro sobre o qual se escreve e uma coisa engraçada é a minha gata pensando que o próprio rabo é uma bolinha.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

sonho

sonhei que lia um livro que tinha dois textos simultâneos. um, linear, cujo significado era dado pela sequência normal das palavras. outro, paralelo, cuja sucessão era dada pelas palavras alternadas. as palavras um, três, cinco, sete, nove e assim por diante. acho que o sonho é mesmo isso. a sequência alternada da sensação de linearidade da vigília. todas as noites lemos o texto paralelo que mal montamos durante os dias.