domingo, 13 de junho de 2010
repetição
não sei se o fato de ter repetido um post é bom ou ruim. acho que é mais bom do que ruim. acaba sendo como se esse lugar aqui fosse uma espécie de amigo, para quem eu conto a mesma coisa várias vezes, sem me dar conta disso e o amigo responde (quando é amigo mesmo): você já contou isso antes. mas pode ser ruim também. pode querer dizer que até a virtualidade envelhece. mas isso seria muito mais um bom jogo de palavras do que a verdade. repetir-se, dentro de limites, é uma forma de esquecimento ao contrário. esqueci que me lembrei demais.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
demora
algumas coisas demoram. moram mais tempo, saem do tempo. nos observam, incuriosas e um pouco displicentes. poderiam perguntar-se: "será que ele(ela) vai aguentar esperar?" mas nem isso se perguntam. aguardam aconchegadas na morada dos dias, dos meses, dos anos, até chegar sua vez de acontecer. não têm pressa. deixam-nos aflitos e talvez até se divirtam com nossa ansiedade. é preciso olhar para elas, lá no alto da montanha, na rachadura de uma rocha, no fundo da terra onde elas costumam ficar até chegarem aqui, e fitá-las calmamente. no máximo, murmurar: "está bem, coisa. eu espero por você."
quarta-feira, 9 de junho de 2010
filosofia
estava em éfeso, na turquia, onde conheci dois professores de filosofia de uma universidade americana. ficamos todos hospedados num hotel de quinta categoria, a dois dólares por noite. a cidade antiga, onde estão as ruínas romanas mais bem conservadas do mundo, fica fechada à noite. eu tinha visto alguns instrumentistas se dirigindo à entrada da cidade e resolvi segui-los. na entrada, ninguém nos bloqueou, provavelmente porque concluíram que éramos acompanhantes dos músicos. eles rumaram para as ruínas totalmente intactas de um anfiteatro romano. havia centenas de pessoas sentadas lá e o resto da cidade estava todo iluminado e completamente vazio. era possível ver as ruas, as casas, a escola, a biblioteca, tudo como se fosse em roma antiga. o público do teatro eram os passageiros de um cruzeiro chique americano e os músicos iriam tocar um concerto para eles. sentamos e fingimos também ser passageiros chiques. os músicos eram meio mambembes, mas isso só fez aumentar a beleza do lugar e da atmosfera. no intervalo do concerto, a hostess se aproximou de nós três e perguntou: "desculpem, vocês pertencem ao navio?" nós dissemos que não. ela se desculpou e disse que, nesse caso, precisaríamos nos retirar. o concerto era exclusivo. um dos filósofos, de inteligência rápida e tipicamente americana, soltou imediatamente: "tudo bem. já fui expulso de lugares bem melhores." duvido.
terça-feira, 8 de junho de 2010
ego
como cresci ouvindo falar de ego, id e superego, acabei assimilando a ideia, como acredito que tenha acontecido com muita gente, de que eles são instituições, coisas fixadas em nossa mente, como objetos móveis. por causa dessa compreensão obtusa, quando tenho pesadelos horríveis, como o que tive essa noite, fico com raiva do inconsciente. penso: "puxa, faço tanto esforço para amadurecer, para equilibrar as pulsões violentas e passionais do id à força policial do superego, tenho um ego tão esforçado e o inconsciente fica lá, parado, burro, com as mesmas fantasias de quando eu era pequena."
sábado, 5 de junho de 2010
angústia
o som "g", na palavra angústia, é o que dá a ela a sensação exata de seu significado. como passar pelo corredor estreito desse som, que não vem do pulmão, mas diretamente da garganta, paralisando-a e paralisando-se nela? e, para piorar a situação, antes dele vem o "an", um som contínuo e meio burro, carente e imediatamente frustrado pelo "g", que o bloqueia. em seguida, tornando tudo mais terrível, vem o "u", com acento agudo. o "u" preenche a potência paralisante do "g" com ainda maior medo e horror. mas, felizmente, logo em seguida, vêm o "s" sibilante e consolador e o ditongo crescente "tia", prenunciando que logo a trava do "g" vai se desfazer e sempre virá um "a", aberto como o vento, para soltar-se boca afora e dissolver-se no ar.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
ausônia
anteontem a ausônia me ligou. eu estava no meio de uma reunião. atendi baixinho, como procede a alguém nessa situação e ela imediatamente desarticulou todos meus bons procedimentos. gritou: "nonozinha! sabe por que eu liguei? porque eu estou com saudades, nonozinha. porque eu te amo!" "não tem motivo nenhum, e eu não quero te falar nada. vai trabalhar, vai, porque você deve estar numa reunião, né?" eu só disse bem baixinho: "eu também te amo, ausônia".
quarta-feira, 2 de junho de 2010
simplicidade
queria saber escrever um conto que dissesse: "ontem eu encontrei um homem baixo, que me contou aquela piada sobre alguém que perguntou para um português se ele sabia que horas eram, e ele respondeu que sabia. mas não falou as horas". mas eu não consigo escrever isso. fico perguntando: "mas e o homem baixo? por que ele era baixo?" e penso também: "essa simplicidade na narração da piada é, na verdade, estilizada demais. finge ser simples mas é pura linguagem." eu queria saber escrever de um jeito simples, que não fosse querer ser simples e de um jeito bem burro, mas que fosse muito inteligente.
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