segunda-feira, 12 de julho de 2010

ele

acho que descobri. nao escolhi gostar dele. gostar dele é que me escolheu. nao gosto dele nem por isso nem por aquilo. apenas pratico gostar.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

gobelinhos

de manhã bem cedo, os gobelinhos chegam à estação gobelins, em paris. alguns se atrasam, mas ninguém se importa. eles trabalham o dia inteiro embaixo dos trilhos do metrô e fazem paris funcionar. o chefe deles se comunica com eles a partir da ponta de um cadarço de tênis, e trabalha num bistrô chamado chez gladine, onde serve carnes deliciosas com batatas a preços acessíveis. na verdade, ele é um espião dos gobelinhos. quando chega a noite, todos eles voltam para casa, onde dormem aconchegados dentro de um tênis gigante, tamanho quarenta e oito. mesmo assim, por efeito de inércia, paris continua funcionando perfeitamente.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

paris

é como se paris fosse uma cidade encoberta por um véu. como se estivesse sempre distante. como se nao fosse possivel toca-la, porque ela se afasta. a luz que a contém é obliqua, nao como a do brasil e, por isso, ela se protege e impede movimentos agressivos. ela pede silencio. eu fico quieta e digo a ela: obrigada por ter inventado este azul.

terça-feira, 29 de junho de 2010

viagem

viagem. quando a margem vira rio. quando os nomes soam vazios e viram somente palavras que não querem dizer nada. só o que dizem. quando "bom dia" é "bom dia" e as cenas que eu já vi, eu nunca antes tinha visto. estar onde só se está. não precisar nem saber. estar só, interminavelmente só, somente por um intervalo. não ter o que dizer e não querer dizer nada. fartar-se de outras latitudes e ver a água girar ao contrário. daí saber que se está no meio de outro lugar do mundo e que o mundo é só mundo e que todos somos só uma margem. é bom ser margem e ninguém. por uma vez, agradecer que ninguém me entende e nem quer entender.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

céu

acho lindo: gente do céu; será o benedito; minha santa periquita do bigode loiro; dá mais que chuchu na serra; tá mais por fora que cotovelo de motorista de caminhão; pede pra são longuinho; puta que o pariu; na conchinchina; foi pra portugal, perdeu o lugar; amarrar o burro; sô; trem; coisar e a minha gatinha mia.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

soldadinho

minha mãe cortava o pão de centeio em bolinhas, as salsichas também, espetava com um palito de dentes e chamava de soldadinhos. fazia carne de sopa e colocava no centro do prato, envolto por um molho de tomate, que era o mar, e purê de batatas, que era a praia. esse prato se chamava "a ilha". fazia espinafre cozido com ovo pochê em cima, numa taça vermelha de vidro, todas as sextas-feiras, quando tínhamos visitas. sopa de pêssego e claras de ovos, como entrada para o jantar. de sobremesa, uma taça longa com café quente e sorvete gelado, que tomávamos com canudinho. em iom kipur, rocambole de chocolate, de onde escorria um fio úmido de chocolate toda vez que eu dava uma mordida. em pessach, ela mexia ovos com matzá quebrada. no inverno, cholnt, que ficava cozendo no fogo durante doze horas e ela acordava durante a noite para mexer. goulash com nhoque e sem creme de leite, com páprica húngara picante. bife de contra-filé que ela salgava na hora, frito com manteiga direto na chapa. como ela conseguia fazer o contra-filé ficar macio? meu pai só sabia assar castanhas, mas assava com tanto orgulho que era como se soubesse cozinhar muito bem. eu só sei fazer mussaka, torta de ameixas e damascos, brownies e macarrão com ossobuco desfiado. a comida não é uma parte da minha vida, uma parte do meu tempo. é o pão que eu como com o mundo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

saudade

o dicionário diz que saudade é um sentimento mais ou menos melancólico de incompletude. como assim, mais ou menos? como saber se um sentimento está mais ou menos melancólico de incompletude? e por que às vezes é saudade e outras vezes saudades? será que quando é menos é saudade e quando é mais é saudades? penso que saudade é mais geral e saudades, mais específico. e que saudade é mais melancólico e saudades é menos melancólico. mas, de incompletude, os dois sentimentos são. e eu, agora, estou com muito sentimento melancólico de incompletude específico.