sexta-feira, 6 de agosto de 2010

torre

não tive acesso à torre. os infinitos andares subterrâneos e circulares, por onde andavam gaiolas de aço gigantes, tinham catracas, controles automáticos, senhas e cartões que eu não possuía. precisava falar com auto-falantes, me identificar, me credenciar e a cada andar a espécie de visitante era diferente. pedestre? funcionário? carona amiga? idoso? cadeirante? visitante? trabalho temporário? os controladores diziam, através de suas caixas falantes, que eu era a mesma. a mesma se encontra no g2. a mesma está se encaminhando para o g3. a mesma não está credenciada. quando saí de minha pequena gaiola, decorei o número e a letra: c9. fui me dirigindo à torre que várias placas enormes anunciavam: acesso à torre, acesso à torre, acesso à torre. subi sete escadas rolantes, perguntei muitas vezes onde ficava o auditório, recebi um crachá e cheguei ao que imaginava ser a torre. lá, uma pobre mulher me esperava aos berros. eu estava muito atrasada e já haviam encontrado uma outra pessoa para me substituir. fiquei parada olhando os estudantes chineses sorridentes passando para entrar na torre. fui enviada de volta ao c9 no g3, que, na verdade, era b9 e eu estava bloqueando outra gaiola. seria satisfatório, o homem falou, que a mesma se retirasse. a mesma se retirou. a mesma não quer ter acesso à torre.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

vírgula

a palavra vírgula é feia, mas muito orgulhosa de si, o que a torna subitamente bonita. a proparoxítona, misturada ao r e ao g a tornam gorda, deslocada. mas é justamente esta combinação esdrúxula que a faz parecer assumida em seu som estranho e em sua função essencial na língua. como uma maçaneta ou uma dobradiça que sabem que não são porta nem janela, mas que, sem elas, portas e janelas não existiriam. a vírgula é um cotovelo da língua.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

contra

nunca, por mais que me expliquem minuciosamente, consigo entender a diferença aparentemente óbvia entre contra a luz e a favor da luz. um dia desses, de repente, me dei conta de uma possível explicação para esta teimosia em não aprender. uma vez, com cerca de uns oito anos, dormia num acampamento, num galpão onde havia centenas de beliches. acordei no meio da noite com vontade de fazer xixi. minha prima, que sempre era mais esperta do que eu, dormia na cama de cima. desesperada, eu a acordei e perguntei: suely, onde fica o banheiro? ela disse: conta sete janelas. eu ouvi: contra sete janelas. fiquei pensando, aflita, "contra sete janelas?" o que será isso? já tinha ouvido adultos usando esta palavra no sentido prepositivo, e achei que deveria saber, mas fiquei com vergonha de perguntar o que seria contra sete janelas. fiz xixi na calça e para sempre fiquei com medo da preposição contra.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

carlota

o seu madruga disse que meu carro está sem carlota. agora eu quero uma carlota para o meu carro, mas não o tempo inteiro. ela iria me contar as novidades sobre minhas primas, as notícias menos importantes do jornal e iria cantar músicas antigas, talvez até árias alemãs do século dezenove. mas quando ela começasse a falar demais, e eu quisesse ficar sozinha, daí botava ela calada de volta na roda.

sábado, 31 de julho de 2010

nome

à etimologia de deus, de theos, do grego, que significa ser supremo, prefiro a de god, que, lá das lonjuras ostrogodas, significa suco, daí: aquele que se derrama sobre nós. o deus suco se mistura conosco. gosto demais também de um dos nomes de deus em hebraico, que é mesmo "o nome". outra designação linda, também em hebraico é somente o artigo "o". deus como o nome de deus, ou como o artigo que precede seu nome, soam como magia, domínio de uma língua sagrada, que abriria portas, assim como abracadabra. agora não sei se prefiro o nome ou suco, mas ser supremo, definitivamente não.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

caras

um poema meu sobre o tempo dos olhos do cachorro saiu na revista caras. na capa, aparece a adriane galisteu grávida. acima do trecho do meu poema, dois cachorros bonitinhos se entreolham. de início, fiquei brava; depois, condescendente e agora, um pouco feliz. ingresse no mundo feio, meu poema, vá até a cerimônia do casamento de georgette mirna e ao batizado do filho do jogador do atlético mineiro. espie por baixo dos vestidos versace e conheça o castelo de caras em punta del este. siga o seu caminho, meu poema e me mostre de volta o que eu ainda não conheci.

terça-feira, 27 de julho de 2010

memória

a memória como os nós de uma árvore, como as divisões do corpo de uma cobra, como as camadas geológicas da terra. os acontecimentos se sedimentam, não superpostos, mas agregados. assim, minha avó que tinha vergonha de se sentar, porque saberiam que ela tinha nádegas, se mistura com a briga que tive com a professora de português no primário e, possivelmente, até com a comida de ontem, se, por um acaso, ela recendia a algum sabor da casa de minha avó. à noite, entregue à dissolução dos sedimentos, sonho que minha avó e minha professora entraram em minha cozinha e vieram jantar comigo. já acordada, naquele estado privilegiado que precede a vigília, sinto uma ligeira vergonha de existir.