quinta-feira, 19 de agosto de 2010
piada
quando eu era bem pequena, meu pai me punha para dormir quase todas as noites. ele se deitava ao meu lado e eu sempre pedia para ele contar a mesma piada. daí ele contava: "isaac e jacob eram irmãos e estava muito frio. jacob pediu para isaac: isaac, feche a janela, está muito frio lá fora. e isaac respondia: e se eu fechar a janela, vai ficar mais quente lá fora?" ele contava e nós sempre ríamos como se fosse a primeira vez.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
machado
às vezes ouço o som de uma palavra como ax, que é machado em inglês e tenho a sensação de estar diante não de um significado, mas da origem mesma da língua. daí penso em acha, que em português é um monte de lenha; em eixo, que em inglês é axis; na letra h, que é em espanhol é ache; no próprio desenho do machado que lembra uma letra, e que, de tão necessário e original, deve ter inspirado os primeiros inventores das letras e pictogramas; penso na letra xis e na própria palavra ax. como é possível que haja uma coincidência tão grande entre um objeto e o som que coube a ele? e por que só em inglês? por que não temos direito, nós, em português, a dizer axa para o machado?
domingo, 15 de agosto de 2010
nota
só outro dia aprendi que blue note é a nota triste, associação que eu nunca tinha feito antes. me contaram que essa nota é uma herança das escalas musicais entoadas pelos africanos em suas canções de trabalho. assim, numa melodia diatônica tradicional do ocidente, a nota triste soa como uma nota inesperada na linha melódica, uma terça, uma quinta, ou uma sétima mais para baixo. quando o ouvinte espera um intervalo maior, vem esse intervalo menor e é essa diminuição do tempo entre duas notas que é triste. a tristeza, ou melhor, a tristeza azul, é a diminuição do intervalo esperado.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
chopin
cada nota do noturno opus nove número dois de chopin soa como uma possibilidade inteira, a terra inteira se curvando na direção do sol, o mar obedecendo ao vento, ou somente um palito de fósforos riscando o fogo. as notas seguem umas às outras, mas é como se não precisasse; como se cada uma delas, mesmo nas sequências mais rápidas, existisse sozinha e a outra só viesse para lhe fazer companhia. a melodia bate diretamente no peito e posso sentir meu coração e pulmão mais firmes e prontos para a vida.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
ou
era um homem chamado flavio, ou um acento circunflexo na letra errada, ou um ponto de ônibus vazio, ou os braços cruzados de uma mulher muito gorda, ou as rugas nos cantos dos olhos de uma senhora que podia ser minha mãe, ou o ferrinho de prender pão solto no chão da cozinha, ou o sinal amarelo piscando sem parar numa esquina de pinheiros, ou um exercício de ginástica mal feito, ou um sonho que perambulava em busca de alguém que o sonhara, ou uma menina bonita de saia roxa, ou a meia-calça brilhante de outra menina, ou a lâmpada pequena num fiário de lâmpadas maiores, ou o paralelepípedo quebrado numa rua antiga do butantã, ou a fita de vhs numa vídeolocadora, ou um pedaço da meia soquete que estava um pouco desfiado, ou a alça meio arrebentada de uma mala verde, ou a prega de um vestido bonito, ou uma mosca dentro de uma teia de aranha?
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
corredeira
o david e eu decidimos fazer um rafting no rio jordão. eu estava emocionada por estar no mesmo lugar onde jesus foi batizado e o david não estava nem aí. o rafting foi, aos poucos, se revelando como um programa familiar demais para o nosso desejo de aventura. era liso, não tinha nem uma única corredeira. o barco só ia indo. do nada, resolvemos então começar a cantar músicas dos beatles. i wanna hold your hand; help; yesterday; norwegian wood; eleanor rigby e, depois, cassia eller: quando o segundo sol chegaaaaar, para realinhar as órbitas dos planetas. gritávamos no rio jordão. foi muito melhor que corredeiras.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
fechadura
uma fechadura tem vários buracos. uma pessoa tem todas as chaves para abrir esta grande fechadura. mas ela não consegue enfiar todas as chaves nos buracos correspondentes de uma só vez. ela tenta então colocar uma de cada vez. mas quando ela acerta uma, a outra se trava, porque a fechadura só aceita que todas as chaves sejam colocadas simultaneamente. a pessoa estuda, durante muito tempo, as coincidências entre os dentes das chaves e os orifícios de cada entrada. mas não consegue segurar tantas chaves nas posições corretas de uma só vez. cria então um mecanismo de suspensão das chaves nas posições certas, insere-as e coloca-as todas em suas entradas correspondentes ao mesmo tempo. a porta se abre, mas já se passou muito tempo para que a função cabível fosse cumprida.
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