terça-feira, 24 de agosto de 2010
nomes
os ostrogodos magiares, a quem eu respeito muito, e que falam uma língua que, de acordo com guimarães rosa, só fala quem tem parte com o demo, me enviaram lá do fundo do tempo e das planícies húngaras, duas pessoas que eu mal conheço, mas com quem me sinto prontamente identificada: adriana komives e veronika paulics. como gosto de ouvir esses nomes que terminam em s, precedidos de consoantes cujas combinações são estranhas ao português. como gosto da letra k nesses nomes, que os torna imediatamente antigos, ou mais que antigos, ancestrais. pessoas com esses nomes estão aí para tudo, haja o que houver, e lutariam tranquilamente contra os godos nórdicos numa batalha de drakkars. agradeço a este blog, aos ostrogodos, aos nomes das minhas amigas e a elas, por levarem a força de seus nomes para sua vida, para o mundo e, como um acaso destinado, também para mim.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
consoante
torta é de comer; truta também; trator é de andar; trato é de cumprir; rota é de seguir; tártaro é de temer; torta também é de desviar; ator é de imitar; rato é de assustar; tiritar é de tremer; treta é de enganar; rito é de repetir; arte é de brincar; trote é de pular; reto é de desentortar; tora é de pesar; toar é de cantar; irritar é de brigar e já estou me afastando da brincadeira porque não lembro de outras palavras com t e r, que, juntas, formam um dos melhores encontros consonantais da língua portuguesa.
sábado, 21 de agosto de 2010
dualidade
onde, quando e por que deus estiver, ele se alegra em saber que existe um homem que é padre, mora no grajaú, em são paulo, acorda às quatro horas da manhã, pega o trem às cinco e cinquenta, vai até a estação usp, pega o ônibus até a estação vila madalena do metrô, vai até a estação sumaré e anda a pé até a puc, na rua monte alegre, onde chega antes das nove para assistir minha aula e me ensina a diferença entre dualidade e dualismo, e por que deve se fazer uma leitura alegórica sobre o fato de eva ter nascido da costela de adão.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
piada
quando eu era bem pequena, meu pai me punha para dormir quase todas as noites. ele se deitava ao meu lado e eu sempre pedia para ele contar a mesma piada. daí ele contava: "isaac e jacob eram irmãos e estava muito frio. jacob pediu para isaac: isaac, feche a janela, está muito frio lá fora. e isaac respondia: e se eu fechar a janela, vai ficar mais quente lá fora?" ele contava e nós sempre ríamos como se fosse a primeira vez.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
machado
às vezes ouço o som de uma palavra como ax, que é machado em inglês e tenho a sensação de estar diante não de um significado, mas da origem mesma da língua. daí penso em acha, que em português é um monte de lenha; em eixo, que em inglês é axis; na letra h, que é em espanhol é ache; no próprio desenho do machado que lembra uma letra, e que, de tão necessário e original, deve ter inspirado os primeiros inventores das letras e pictogramas; penso na letra xis e na própria palavra ax. como é possível que haja uma coincidência tão grande entre um objeto e o som que coube a ele? e por que só em inglês? por que não temos direito, nós, em português, a dizer axa para o machado?
domingo, 15 de agosto de 2010
nota
só outro dia aprendi que blue note é a nota triste, associação que eu nunca tinha feito antes. me contaram que essa nota é uma herança das escalas musicais entoadas pelos africanos em suas canções de trabalho. assim, numa melodia diatônica tradicional do ocidente, a nota triste soa como uma nota inesperada na linha melódica, uma terça, uma quinta, ou uma sétima mais para baixo. quando o ouvinte espera um intervalo maior, vem esse intervalo menor e é essa diminuição do tempo entre duas notas que é triste. a tristeza, ou melhor, a tristeza azul, é a diminuição do intervalo esperado.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
chopin
cada nota do noturno opus nove número dois de chopin soa como uma possibilidade inteira, a terra inteira se curvando na direção do sol, o mar obedecendo ao vento, ou somente um palito de fósforos riscando o fogo. as notas seguem umas às outras, mas é como se não precisasse; como se cada uma delas, mesmo nas sequências mais rápidas, existisse sozinha e a outra só viesse para lhe fazer companhia. a melodia bate diretamente no peito e posso sentir meu coração e pulmão mais firmes e prontos para a vida.
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