sexta-feira, 24 de setembro de 2010

bastante

desconfio que a palavra bastante, ao menos do modo como vem sendo usada, é mentirosa. ela diz exatamente o contrário daquilo que parece dizer. dizer que alguma coisa é "bastante boa" é um eufemismo para não dizer que ela é ruim. o mesmo com "bastante inteligente", "gostei bastante" e, principalmente, para a pior de todas as apreciações de alguma coisa: "bastante interessante". que a vida sempre me proteja de ser "bastante interessante". afinal, bastante é só o que basta e só o que basta não é bastante.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

fresta

quando a gente dorme, as palavras ficam também dormindo numa caixa amarela. no momento de despertar, a tampa da caixa se abre lentamente e, pelas frestas, algumas palavras vão saindo aleatoriamente. então sai assim: "a senhora já viu uma coisa dessas?"; "lambuzado"; "dá cá aquela palha"; "verde-musgo"; "atrás do trio elétrico". elas aparecem já na nossa boca e, quando vemos, estamos falando. daí elas saem para o ar, onde se misturam com o relógio, a luz do dia, os barulhos distantes. elas não gostam muito disso e voltam para perto de nós, já todas arrumadinhas. querem entrar. a gente pega as palavras, dá uma organizada e, também um pouco tristes, condescendemos e começamos a falar coisa com coisa.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

poder

cada vez parece mais que todos optam pelo silêncio. não o silêncio contemplativo, que escuta e demora. mas o silêncio de quem não quer se comprometer. vamos a lugares, encontramos pessoas e aprendemos a falar pouco, cada vez menos. este tipo de silêncio é linguagem de poder, porque ele encerra um conteúdo claro: "não preciso de você". tendo a pensar que este tipo de discurso enviesado, mas altamente funcional e eficiente, na verdade diz exatamente o contrário: "preciso tanto de você, que jamais vou deixar que você ou alguém perceba".

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

oi

adoro a palavra oi. mal parece expressão fática, de tão expressiva e comunicativa que é. como dizer melhor o reencontro, o prazer de avistar, a brevidade do cruzamento, a brasilidade do cumprimento? ela expressa alegria rápida, surpresa e, como som, ela é completa, redonda e, por ser um ditongo monossilábico decrescente, termina rapidamente e com conclusividade o que quer dizer. o oi é ótimo. mas o problema, o problema sério, com o qual não consigo me acostumar e que me atrapalha os encontros sociais, é o "tudo bem?".

sábado, 18 de setembro de 2010

dente

como é digno ter um recipiente no banheiro onde se guardam as escovas de dentes de cada pessoa da casa e reconhecer: essa é dele, essa é dela, essa é minha. prometo, por tudo o que me é sagrado, ter um potinho para as escovas de dentes, independentemente do que possa acontecer na minha vida.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

solidão

a solidão pode ser um presente. ela obriga ao silêncio, que é a melhor resposta para grande parte das perguntas. obriga ao espaço mais amplo e mais vazio, onde o corpo respira com mais extensão e mobilidade. ela nos faz ouvir a respiração, ver melhor a pupila azul da gata. ela dá mais peso e espessura ao tempo e quase é possível ouvi-lo passar. ela é cerimoniosa e não convencional como os encontros fortuitos. ela é uma companhia que vai se descobrindo aos poucos, sempre cheia de novidades e seus segredos só se revelam com muito cuidado e graça. ela habita a noite, mas vem me visitar também durante o dia, especialmente às tardes. senta embaixo do armário do corredor e quando eu a avisto, digo: olá, solidão, entre no meu quarto, você quer um café? ela nunca quer, não gosta de incomodar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

ditados

ditados de que eu não gosto: deus ajuda quem cedo madruga; de boas intenções o inferno está cheio; mais vale um pássaro na mão do que dois voando; amigos, amigos, negócios à parte; não existe almoço grátis; dize-me com quem andas e te direi quem és; se conselho fosse bom, era vendido, não dado; é de pequenino que se torce o pepino; o ócio é a mãe de todos os vícios; lavo as minhas mãos; cada macaco no seu galho; cada qual é para o que nasce; desculpa de aleijado é muleta; gosto não se discute; manda quem pode, obedece quem deve; não se deve dar pérolas aos porcos; o pão do pobre cai sempre com a manteiga virada para o lado de baixo; passarinho que anda com morcego, acaba dormindo de ponta-cabeça; quem pode manda e quem não pode, faz; quem empresta, adeus; quem sabe faz, quem não sabe ensina; todo homem tem o seu preço.