terça-feira, 19 de outubro de 2010
mortadela
de algumas coisas que mais me lembro na vida: o pedacinho de vidro de garrafa tônica que eu quase engoli; o sanduíche de mortadela da padaria da tocantins com a guarani; o dinheiro enrolado num elástico que meu pai carregava no bolso lateral da calça de tergal; o henrique se escondendo atrás da cortina enorme da sala da quarta série e me gritando búuuu; o zé maria me chamando de boemiiiiiia quando eu entrava na sala do segundo a; minhas cinco viagens completas entre santana e jabaquara quando o metrô inaugurou em mil novecentos e setenta e quatro; o seriado da família holandesa que naufragava e vivia numa ilha com casinhas no topo das árvores; a brincadeira que eu e a suely fazíamos no rádio da sala da casa dela, fingindo que era foguete; o toddy batido no liquidificador na casa da tia richa; o porta guardanapo com nome do dono, na mesma casa da tia richa; o táxi de um banco só em que minha mãe e eu íamos ao cine paissandu, todos os domingos de manhã, assistir à matinê; os dois pastéis de queijo que minha mãe me comprava no largo do paissandu, depois da matinê; o menino que, enquanto eu dormia numa poltrona do ônibus, na volta da colônia de férias, se sentou lá de surpresa e, quando eu abri os olhos, disse que gostava de mim.
domingo, 17 de outubro de 2010
noção
meus antigos alunos me chamavam de "sem noção". um deles contava que, no grau máximo de braveza, eu virava pra eles e dizia, colérica: "seus, seus, seus....bobos!". enfim, ao longo dos anos e depois de tantas demonstrações de falta de esperteza, acabei concluindo que sou mesmo meio abobada. mas, para além da defesa da bobice (como a que faz clarice lispector), aprendi também a usá-la a meu favor, como um tipo de linguagem - não premeditada - mas ainda assim um aspecto que mais me ajuda do que atrapalha. agora, um dos exemplos maiores de "sem noçãozice" que já cometi, foi quando, durante uma aula, peguei minha bolsa e um aluno perguntou: "tá vazando, noemi?". olhei para minha calça, para o chão, para ele e respondi: "não, não estou vazando! você tá vendo alguma mancha?"
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
bacalhau
sozinha em são paulo, me dei de presente ir ao antiquarius, comer bacalhau. mas nenhum, nenhum bacalhau aguenta as conversas que ouvi: "tenho mais perfil corporativo que de empreendedorismo"; " com uma conversinha aqui, outra ali, elegemos ele prefeito fácil, fácil"; "não quero dispor da ligia de forma alguma; ela é uma excelente funcionária"; "se esse partideco ganhar, melhor; assim me mudo de uma vez pros estados unidos e abro uma consultoria"; "quanto vai sair: doze, no máximo doze milhões; quinze, nem pensar"; "uma mensalidade escolar aqui em são paulo não sai por menos de três mil reais por mês, contando balé, inglês e umas aulinhas de teatro" e o mais indigesto de todos, ainda regado ao som de uma bossa-nova de elevador: "os banheiros aqui de são paulo não se comparam com os da suíça".
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
anjos
se houver mesmo anjos, não os imagino em outro estado que não tristes, apartados de qualquer possibilidade de adaptação, esta praga de uma civilização desaurada. e, entre os anjos que, mesmo não os havendo, sei que existiram, o maior deles foi bruno schulz, que, em um dos contos do livro "sanatório", fala de uma primavera que se fez côncava e vazia, naquele ano de sua infância, até que o personagem descobriu que sua concavidade se devia à revelação que a própria primavera lhe reservava: um álbum de selos. só os anjos conseguem ver as formas dos dias e, mais ainda, enxergar nelas sua razão de ser: a espera, ou a chegada de um presente.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
ditados II
acredito que, pelo fato de meus pais nunca terem dominado muito bem o português, eles nunca pronunciavam ditados em casa, em situação alguma. ditados são propriedade de quem domina perfeitamente uma língua. o resultado disso, pelo menos para mim, foi uma certa "afasia de ditados", que mantenho até hoje. gostaria muito de saber usá-los, mas, quando vejo, faço o uso trocado. assim, sai: tá na hora da onça fumar; o bicho vai comer; atirou no que viu, errou; uma no cravo, outra na ferra bruta; acendeu uma vela pra cada defunto; em gato escaldado não se olha os dentes e uma coleção de deslocamentos e misturas de diversas origens. mas não é que às vezes funciona?
domingo, 10 de outubro de 2010
combinações
combinações aparentemente impossíveis que já presenciei: um saxofonista dinamarquês na turquia; um crítico de comida búlgaro e gay em varsóvia; uma ex-professora de cinema morando na rua; um estudante de medicina motorista de táxi em budapeste; um sorveteiro, em fartura, que já leu camus, sabe nelson rodrigues de cor e não gosta do estadão, só da folha; um vigia de usina de açúcar que acabou de aprender a ler e está escrevendo um livro; uma ovelha que acalma um cavalo no jockey clube de são paulo.
sábado, 9 de outubro de 2010
vingança
eu vi: no casamento da minha sobrinha, às quatro horas da manhã, dezenas de são paulinos cantando juntos o hino do corinthians, guiados pela bateria da gaviões da fiel e isso me deixou muito, mas muito muito feliz.
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