domingo, 24 de outubro de 2010

ovo

o ovo cozido (que na minha família é ovo duro) é a expressão máxima da dignidade culinária. simples, perfeito na sua integridade de forma, sabor, cores e textura, é a comida dos imigrantes russos ou japoneses chegando ao brasil nas décadas de quarenta e cinquenta, do migrante nordestino que chega a são paulo, da lancheira preparada pelas mães pobres e ricas. não se rende a situações de extrema carência, mantendo sempre classe e altivez; não se subordina a preparos muito refinados, pronunciando-se mesmo sobre os ingredientes mias raros. pede isolamento, para que sua inteireza permaneça como uma das verdades absolutas, em que sempre se pode confiar. consola os tristes, alimenta o corpo e a alma e alegra ainda mais aqueles que somente o buscam por diversão. mas não se deve brincar demais com o ovo cozido. ele é sério e de alguma forma, impenetrável. preenche nossas necessidades mais íntimas, mas não permite violar seu mistério. o ovo é palindrômico, completo, circular, inviolável.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

agelastos

tenho medo de rato; de cobra; de guerra; do bolo queimar; de contemporizar demais; da minha raiva; de raio. mas do que eu tenho mais medo, mais medo mesmo, é de uma coisa que eu acabei de aprender com o milan kundera: os agelastos, aqueles que não sabem, não querem e não gostam de rir.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

particípio

a forma verbal mais bonita da língua portuguesa é o particípio presente. mistura de nome e verbo, passado e presente, ele indica que uma ação está em estado de ocorrência atual, gradual e permanente. assim, o sol poente está se pondo agora, aos poucos e sempre. isso faz com que o sol, de alguma maneira, esteja constantemente se pondo, mesmo quando é de manhã; como se ele estivesse de prontidão para o ocaso, o que efetivamente está. gosto também de pensar que todas as palavras do português que terminam com "ente" ou "ante" também são particípios presentes. dessa forma, estante é aquilo que fica estando para sempre e instante é aquilo que insta, uma instância permanente, uma instabilidade que está sempre em estado de acontecimento.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

mortadela

de algumas coisas que mais me lembro na vida: o pedacinho de vidro de garrafa tônica que eu quase engoli; o sanduíche de mortadela da padaria da tocantins com a guarani; o dinheiro enrolado num elástico que meu pai carregava no bolso lateral da calça de tergal; o henrique se escondendo atrás da cortina enorme da sala da quarta série e me gritando búuuu; o zé maria me chamando de boemiiiiiia quando eu entrava na sala do segundo a; minhas cinco viagens completas entre santana e jabaquara quando o metrô inaugurou em mil novecentos e setenta e quatro; o seriado da família holandesa que naufragava e vivia numa ilha com casinhas no topo das árvores; a brincadeira que eu e a suely fazíamos no rádio da sala da casa dela, fingindo que era foguete; o toddy batido no liquidificador na casa da tia richa; o porta guardanapo com nome do dono, na mesma casa da tia richa; o táxi de um banco só em que minha mãe e eu íamos ao cine paissandu, todos os domingos de manhã, assistir à matinê; os dois pastéis de queijo que minha mãe me comprava no largo do paissandu, depois da matinê; o menino que, enquanto eu dormia numa poltrona do ônibus, na volta da colônia de férias, se sentou lá de surpresa e, quando eu abri os olhos, disse que gostava de mim.

domingo, 17 de outubro de 2010

noção

meus antigos alunos me chamavam de "sem noção". um deles contava que, no grau máximo de braveza, eu virava pra eles e dizia, colérica: "seus, seus, seus....bobos!". enfim, ao longo dos anos e depois de tantas demonstrações de falta de esperteza, acabei concluindo que sou mesmo meio abobada. mas, para além da defesa da bobice (como a que faz clarice lispector), aprendi também a usá-la a meu favor, como um tipo de linguagem - não premeditada - mas ainda assim um aspecto que mais me ajuda do que atrapalha. agora, um dos exemplos maiores de "sem noçãozice" que já cometi, foi quando, durante uma aula, peguei minha bolsa e um aluno perguntou: "tá vazando, noemi?". olhei para minha calça, para o chão, para ele e respondi: "não, não estou vazando! você tá vendo alguma mancha?"

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

bacalhau

sozinha em são paulo, me dei de presente ir ao antiquarius, comer bacalhau. mas nenhum, nenhum bacalhau aguenta as conversas que ouvi: "tenho mais perfil corporativo que de empreendedorismo"; " com uma conversinha aqui, outra ali, elegemos ele prefeito fácil, fácil"; "não quero dispor da ligia de forma alguma; ela é uma excelente funcionária"; "se esse partideco ganhar, melhor; assim me mudo de uma vez pros estados unidos e abro uma consultoria"; "quanto vai sair: doze, no máximo doze milhões; quinze, nem pensar"; "uma mensalidade escolar aqui em são paulo não sai por menos de três mil reais por mês, contando balé, inglês e umas aulinhas de teatro" e o mais indigesto de todos, ainda regado ao som de uma bossa-nova de elevador: "os banheiros aqui de são paulo não se comparam com os da suíça".

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

anjos

se houver mesmo anjos, não os imagino em outro estado que não tristes, apartados de qualquer possibilidade de adaptação, esta praga de uma civilização desaurada. e, entre os anjos que, mesmo não os havendo, sei que existiram, o maior deles foi bruno schulz, que, em um dos contos do livro "sanatório", fala de uma primavera que se fez côncava e vazia, naquele ano de sua infância, até que o personagem descobriu que sua concavidade se devia à revelação que a própria primavera lhe reservava: um álbum de selos. só os anjos conseguem ver as formas dos dias e, mais ainda, enxergar nelas sua razão de ser: a espera, ou a chegada de um presente.