domingo, 14 de novembro de 2010
filhos
eles são a concentração de sal e sangue que assoma na fronteira entre os olhos e o nariz, quase provocando o choro, que é rapidamente contido para que a sensação se mantenha e não se dissolva em líquido.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
folga
chata é a melhor palavra que existe para as coisas e as pessoas chatas. a vogal "a" duplicada - a mais aberta e por isso mesmo a mais impertinente das vogais da língua - o dígrafo "ch" e a consoante "t", que arrastam a vogal para o chão e criam um misto de martelamento e chiado, expressam perfeitamente a planaridade, a insistência e a folga dos chatos.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
everest
uma declaração de amor que eu queria ouvir agora: vamos juntos dar a volta no quarteirão, entrar naquela igreja onde o padre diz que joga bingo, olhar os móveis que estão à venda dentro da rotatória, roubar um rolo de fita adesiva da fábrica na outra esquina e depois almoçar no chinês chamado everest?
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
pau
tinha dificuldades em fazer amizades quando era pequena. na praia, então, minha mãe se aproximava de alguma criança e perguntava: "quer ser amiguinho da minha filha?", com isso quase me enterrando na areia de vergonha. a criança geralmente queria e ficava minha amiga. hoje, penso que aprendi, com ela, que ser cara de pau é uma subversão de conteúdo até político. trata-se de uma contorção na expectativa de decoro, que desarma o interlocutor e o obriga a atitudes mais sinceras, porque impensadas.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
que
a frase que deus dirige a moisés, quando se apresenta a ele sob a forma de sarça ardente, diz assim em hebraico: "ani ma she ani". como não há verbos no presente do indicativo em hebraico, a tradução literal desta frase, em português, ficaria assim: "eu o que o que eu". creio não existir tradução mais perfeita para a intenção de totalidade e eterna presença contida nesta frase. ao mesmo tempo, ela também soa como um absurdo eterno extraído de um livro de beckett. enfim, o nada de beckett está muito mais próximo da unidade divina do que nossa incapacidade linguística é capaz de alcançar.
sábado, 6 de novembro de 2010
mia
há dias venho tentando escrever um poema lindo, falando muito mal de um homem-ideia e não consigo. só saem coisas-ideias horríveis. e depois, quando eu olho para ela e a vejo brincando com um peixinho minúsculo de plástico, surfando num anúncio de jornal, se escondendo dos raios da chuva atrás da bicicleta e observando os acontecimentos do quintal a partir de um posto privilegiado no beiral da janela, daí as coisas-ideias já ficam inutilizadas como elas já eram antes de eu escrevê-las.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
sabedoria
sabedoria da aceitação e sabedoria da recusa. não sou sábia o bastante para escolher qual delas adotar. a aceitação é o recebimento gratuito (grato e desinteressado) dos eventos em sua imanência mesma. a recusa é uma briga subversiva contra a adaptação e o hábito que a passagem do tempo forçosamente deposita sobre os mesmos eventos. como saber optar?
Assinar:
Postagens (Atom)
