segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

lorenzo

graças a lorenzo, um italiano não judeu que primo levi conheceu em auschwitz, e que trabalhava numa fábrica próxima, ele e seu amigo alberto sobreviveram ao campo de concentração. lorenzo levou sopa e pão para os dois, todos os dias, durante quatro meses, pondo em risco a própria vida, sem ganhar nada em troca. é muito difícil, talvez impossível, imaginar como seriam as ações e reações que eu, ou qualquer outra pessoa, teriam numa situação como esta. mas lorenzo, com seu silêncio, sua recusa sincera em receber alguma forma de agradecimento, seu gesto arriscado e decisivo para a vida de primo levi, é, para mim, uma verdade serena que sustenta um passado que não tive.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

maçã

se eu esquecer desta história, como diz a reza, que me caia a mão direita: meu querido amigo henrique é cineasta. numa viagem pela antiga união soviética, ao anunciar que passaria por uma cidadezinha do interior, foi recebido na estação do trem, após um grande atraso, pela orquestra da cidade, cujos músicos estavam todos adormecidos pela plataforma. o maestro o levou até sua casa e tratou dele o melhor que pode, apesar das dificuldades todas. no dia seguinte, o henrique tinha que ir para outra cidade. foi acompanhado novamente pela orquestra local, que tocou para ele e, como presente, recebeu do maestro uma companhia para a viagem: um ovo e uma maçã.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

finito

ontem, num filme meio bobo na televisão, ouvi essa pergunta também meio boba, mas interessante: "por que fazer o mundo melhor? por que não fazê-lo menos pior?" ontem também, num livro nada bobo de goethe, li esta outra frase e acabei percebendo que as duas são, na verdade, muito semelhantes: "se queres caminhar para o infinito, caminha para todos os lados do finito".

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

domingo, 30 de janeiro de 2011

conserva

sempre tive muito orgulho do meu pai por essa história que ele me contava, sem também demonstrar nenhum arrependimento: na antiga iugoslávia, minha avó fazia conservas doces e salgadas e guardava para o inverno, num depósito perto da sua casa. cobria os vidros com papel de seda e não deixava ninguém encostar nelas. meu pai subia no telhado do depósito e, com uma vareta, furava o papel. as conservas começavam a estragar e minha avó era, por isso, obrigada a servi-las. essa era uma alternativa. a outra era meu pai e o irmãos se fingirem doentes para que ela se compadecesse e oferecesse a eles geleias e compotas.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

embora

embora, como advérbio, é a contração de em boa hora. "vou embora" é usado como um advérbio de lugar, mas, na origem, tem significado temporal. o tempo e o espaço se reúnem, assim, para que este tempo-lugar seja carregado de bons augúrios. embora fica sendo o lugar e o tempo ideais. mas não consigo entender por que a língua reservou a esta palavra tão bonita também a ideia de conjunção concessiva, como em "embora não fale inglês, eu consigo me virar." penso, penso e não entendo. por que advérbio tempo-espacial e conjunção concessiva?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

nada

quando o mundo acabar, além das baratas, sobreviverá também a burocracia, que, como elas, se auto-imuniza, auto-reproduz, não serve para nada, é feia, chata e burra.