quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

carochinha

o verbo "contar" se usa tanto para historias quanto para números e isso não só em português, como em hebraico, holandês, alemão e espanhol. a guematria é um ramo da cabala que atribui valor numérico às letras do alfabeto e assim calcula o montante de cada palavra da torá, a partir do qual interpreta seu significado oculto. no hebraico, portanto, fica mais ou menos esclarecida a relação entre números, letras e histórias. e mesmo que não se conheça por que o mesmo fenômeno ocorre em outras línguas, é bom imaginar que em cada número se encerra uma história; que contá-los é narrar o mundo e que a matemática é uma fábula em que acreditamos, sem pensar que é tudo uma grande mentira, como os contos de fada e as histórias da carochinha.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

postigo

quero um postigo para poder abrir a porta, mas só o necessário; quero ver sem ser vista, entrever as coisas, saber cada vez menos. quero cada vez mais postigos instalados nas portas. não por proteção, mas por delicadeza.

domingo, 11 de dezembro de 2011

vassoura

tanto estética quanto ideologicamente, não suporto generalizações. quanto à ideologia, acho temerárias palavras como povo, nunca e verdade. onde elas aparecem, costumam comparecer também o autoritarismo e o fanatismo. já em literatura, não posso ver palavras como amor, beleza e dor. prefiro de longe travesseiro, vassoura e alface.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

caetano

o gênio não é aquele que é mais ou melhor do que todos. todos temos um gênio, que é a vida que nos gera e que é gerada em nós. caetano veloso, em seu ultimo disco, recanto, cantado por gal costa, não é um gênio só porque tudo nesse disco é melhor, mas porque tudo nesse disco é a voz do acolhimento a essas pulsões geniais: a vida e a morte que nos habitam.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

tão

o que a testemunha não vê é tão horrível quanto o que ela vê. não ser testemunha é tão ou mais horrível do que sê-lo. não queremos sê-lo; precisamos sê-lo. precisamos querer.

domingo, 4 de dezembro de 2011

testemunha

o que a testemunha vê é tão horrível que ela não consegue contar; o que ela vê, quem ela vê, já não está mais aí para ajudá-la a contar e a lembrar. além do mais, ninguém vê nem viu o que viu a testemunha. ela está só. é daí que paul celan cria o verso: "ninguém/ dá testemunho/ sobre a testemunha".

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

mistério

em budapeste, eu entrava em todas as livrarias que via pela rua (e eram muitas) e perguntava: você tem algum livro sobre os mistérios da língua húngara? sempre achei que fosse senso comum que o húngaro é misterioso, já que ele praticamente não tem parentesco com nenhuma outra língua da europa, já que guimarães rosa dizia que quem fala húngaro tem pacto com o demônio e já que ela é praticamente toda proparoxítona. mas ninguém sabia nada de mistério nenhum e os mais enérgicos se ofendiam e diziam que não, que a língua húngara não tem nada de mistério e que é claro que ela tem parentesco muito próximos: com o finlandês e com o lapão.