domingo, 12 de fevereiro de 2012

sequoias

num painel que maracava a idade das sequoias, no parque muir, vinha a marcação: novecentos ad. quatro portugueses encasacados de couro preto prestaram atenção e um deles disse, sabedor: veja, é de antes de cristo! ao que o joão respondeu: não, é depois. ad é anno domini. o português então retrucou: ah, esqueci que estava em inglês. pensei em português de portugal! mas o que é ad em portugal? antes de?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

eu

fernando pessoa, como sempre, estava certo. o melhor de viajar não é ganhar, é perder. e o que de melhor se perde, em viagens, é o eu.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

tâmaras 2

depois de comer a melhor torta de tâmaras que se pode conceber em todas as galáxias, no melhor restaurante imaginável em todo o cosmo, o chez panisse, escrevi um poema em homenagem a siew-chinn, a doceira malasiana do lugar. nele, brinquei com os três significados da palavra tâmara em inglês: date (data), date (encontro) e date (tâmara). levei o poema até ela, para agradecê-la pela graça alcançada. ela se emocionou, nós nos olhamos por alguns segundos, as duas ameaçando se aproximar uma da outra e finalmente nos abraçamos e nos beijamos. ela pendurou o poema no mural e me perguntou, timidamente: você gostaria de um pedaço da torta? diante do meu espanto afirmativo, ela cortou o equivalente a meia torta e me deu. ela me deu a torta. ela me deu a torta. ela me deu a torta.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

tâmaras

a torta de tâmaras que eu comi hoje não é mais do que uma torta de tâmaras, como se diria no caso de algo excepcional, espetacular, maravilhoso. não. nada disso se aplica a ela. predicá-la seria ficar aquém do que é o sabor uno e íntegro de uma coisa que, por ser somente o que é, é mais do que se pode dizer dela.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

bonde

hoje, no bonde de san francisco, sentamos no mesmo banco uma senhora bem velhinha da georgia, na rússia, moradora de washington, sua filha também russa, um oncologista holandês que veio para um congresso aqui nos estados unidos e que mora na bélgica e eu, uma brasileira filha de sobreviventes de guerra iugoslavos. um carro parou em fila dupla e o bonde teve que parar para esperar o carro ser rebocado. enquanto esperávamos, o motorneiro, um americano forte e estiloso que mascava chiclete, disse: agora fiquem todos quietos; eu preciso relaxar. nosso pequeno mundo do bonde ficou em silêncio e o motorneiro relaxou.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

agnés

agnés varda é um elefante caminhando altivo e certo numa cidade de vidro, sem nada nunca derrubar. é uma cigarra cujo canto não a faz fenecer. é uma andorinha que, quando capturada pelo gavião, convida-o para um voo de trajetos curtos e fulgurantes e o distrai da predação. é só uma minhoca que está no seu quintal e que, com um pouco de descuido, você inopinadamente esmaga. não tem importância. ela reaparecerá: na sua janela, na escova de dentes, no rosto daquela mulher da padaria.

domingo, 29 de janeiro de 2012

café

sabe aquela mulher que tem quarenta e quatro anos, três filhos, é bordadeira, o marido é pipoqueiro e percussionista nas horas vagas e que mora em purwakarta, na indonésia? então. os filhos já, já vão voltar da escola e ela, agora, está passando um café.vai tomá-lo numa xícara que é a sua predileta. a asa está quase quebrando e o pires sumiu, mas ela só usa essa xícara mesmo, porque é de uma porcelana bem fininha.