terça-feira, 13 de março de 2012
luz
quando acaba a luz e cessam os barulhos dos aparelhos elétricos, como a geladeira e o freezer, a qualidade do silêncio noturno é diferente e começam a se ouvir os sons dos insetos, dos grilos, dos pássaros ainda acordados, que provavelmente estranham a ausência dos barulhos habituais. a consciência é o barulho da geladeira, que fica lá, imperceptível, dando um contorno preciso e cansativo aos nossos pensamentos. no sono é como se acabasse a energia e os pensamentos ultrapassassem esses rijos contornos e se diluíssem no mundo líquido e gasoso dos sonhos, dos grilos e dos passarinhos acordados em hora errada.
sábado, 10 de março de 2012
presídio
ontem, saí do presídio feminino, depois de uma aula para as presidiárias e, do lado de fora, dentro do espaço assim chamado livre em que vivemos, senti que lá também é um dentro. lá é o aqui da luzia, da janete, da rose, da mônica, da joelma e de mais onze meninas que me ensinaram que, que me ensinaram que, que me ensinaram.
quinta-feira, 8 de março de 2012
dislexia
benedito e inês eram só duas palavras, provenientes das expressões "será o benedito?" e "inês é morta". mas, numa ocasião, alguém os quis pronunciar em sequência e, durante o encontro na língua, antes de serem emitidos para o ar, para nunca mais, as duas palavras se apaixonaram, assim, como num esbarrão. recusaram-se então a serem emitidos pela pessoa que, sem entender nada, não conseguia pronunciar aquelas duas palavras, que não saíam mais de dentro da boca do sujeito. enrolaram-se ali mesmo e ali ficaram. o resultado disso é que o indivíduo ficou disléxico destas palavras e foi daí que surgiram as expressões, ainda não utilizadas em português, "será a inês" ou "benedito é morto". mas aguardem, porque assim que as duas palavras se reproduzirem, todos estarão, como que do nada, falando estas expressões por aí.
segunda-feira, 5 de março de 2012
anistia
então vão anistiar os desmatadores que têm dívidas acima de um milhão de reais. pois ficamos assim. anistiem também: os torturadores, os trituradores, os tratores, os terrores, os tremores e depois adquiram amnésia, que é de onde vem a palavra anistia, e esqueçam-se a si mesmos.
sábado, 3 de março de 2012
lego
era uma vez três categorias: o índio, o lego e o superlego. o índio era, por sua natureza, selvagem e livre. o superlego, também por natureza, só queria saber de cálculos e montagens complicadas. o lego buscava manter o equilíbrio entre os dois, propondo montagens difíceis, mas prazerosas. no entanto, mesmo com essas diferenças, o índio e o superlego acabavam se dando bem, porque o índio era ótimo na montagem de grandes desafios propostos pelo superlego que, por sua vez, também era excelente nadador e caçador. o lego então ficava, durante muito tempo, quieto, só observando o índio e o superlego brincando: ou de desmontar as caixas ou de atirar pedrinhas um no outro.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
manejo
durante minhas breves insônias infantis e para tentar adormecer, eu imaginava uma roda gigante girando de forma cada vez mais veloz para um lado: direito ou esquerdo, não importava. quando ela atingia o máximo de velocidade, eu forçava a imaginação até conseguir fazer girá-la para o outro lado. nem sempre eu conseguia e ficava contente quando o manejo era bem sucedido. venho fazendo mais ou menos isso até hoje, com mais ou menos sucesso e empenho e, no fim, acabo adormecendo.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
neide
depois de uma viagem à california, onde tudo é tecnológico, me sinto bastante anacrônica. mas, por outro lado, vejo que lá, as últimas tendências dos usuários de tecnologia de ponta são usá-la para que tudo seja cada vez mais molecular, local, comunitário e solidário e, além de tudo, aplicado a alguma prática que reverta em serviços para a comunidade.então penso assim: enquanto os fissurados em tecnologia estão indo com o fubá, minha amiga neide rigo já voltou com dez polentas, porque é isso mesmo o que ela faz já há bastante tempo.
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