domingo, 8 de abril de 2012

poesia

sempre adorei o poema de vinicius: "o mundo é esquisito: tem mosquito", porque achava que ele sintetiza todo o estranhamento que sinto diante do que o mundo tem de espantoso e de incômodo, além de falar também sobre o efeito de condensação da própria poesia. mas quando uma pessoa querida morre subitamente, jovem, na hora do lançamento do livro do marido, que dedicou seu livro maravilhoso de poemas justamente a ela, aí não acho mais esse poema bonito. o mundo é muito mais esquisito, estranho, chato e ruim do que os mosquitos e a poesia é muito menos do que sua condensação. a poesia não é nada e o mundo vira uma droga.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

sulco

foi com um espanto grave que li, nesta semana, que o hábito forma sulcos no cérebro e que, quando os estímulos nervosos atravessam os caminhos sulcados, caem inevitavelmente nessas depressões encefálicas, obrigando-nos a repetir nossos gestos e reações. decreto que a função dos poetas é, desde sempre e para sempre, pular, desviar-se, preencher e criar outros sulcos no cérebro, mais rasos, mais numerosos, mais enganosos.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

borges

outro dia soube que jorge luis borges, em sua primeira visita ao brasil, ainda não tão conhecido aqui e cansado de ir a tantos jantares, onde não podia falar em profundidade sobre assunto nenhum, perguntou a um amigo seu se havia algum lugar onde poderia dar uma palestra. o amigo respondeu que sim, que ele mesmo dava aulas no supletivo santa inês. no dia seguinte borges deu uma aula no supletivo santa inês, para cerca de vinte alunos. perto do final, um deles perguntou o que era coragem, ao que borges respondeu: ah, isso é assunto para uma outra aula. e voltou no dia seguinte.
(história contada por jorge sallum)

sexta-feira, 30 de março de 2012

objeto

é preciso que um extrato da ideia de verdade não seja relativo. não se pode relativizar tudo, sob pena de que, assim, nada tenha substância. e o aspecto absoluto da verdade está sobretudo na coincidência entre sujeito e objeto. se estou, sem saber como estou, por que estou, nem mesmo se estou, e mesmo assim estou completamente, então estou verdadeiramente.

segunda-feira, 26 de março de 2012

dois

penso que talvez os pequenos poderes sejam tão nefastos quanto os grandes, ou quem sabe até mais. o dono de um pequeno poder, como um secretário de repartição, um funcionário de baixo escalão ou mesmo um escritor, é capaz de interpor dificuldades às práticas mais simples e descompromissadas, para, entre outras coisas, vingar-se de seu poder ser tão pequeno. um atendente de uma grande rede de drogarias pode, por exemplo, recusar uma receita, porque está faltando, no ano de dois mil e doze, uma perninha no número dois.

sexta-feira, 23 de março de 2012

estrela

thor é filho de odin, o deus supremo de asgard, e de jord, a deusa de midgar. ele dispara relâmpagos com seu poderoso martelo mjolnir. thor não leu a hora da estrela, de clarice lispector, porque ele só gosta de disparar relâmpagos com seu poderoso mjolnir. wanderson é filho de ana e josé. ele não tem um martelo mjolnir, não consegue disparar relâmpagos e também não leu a hora da estrela.

quarta-feira, 21 de março de 2012

nicholas

encontro o nicholas por acaso tantas vezes por ano, que nós sempre combinamos de nos ver no próximo acaso, que sabemos ser iminente. ontem nos encontramos no mesmo vagão do metrô, quando os dois íamos para as respectivas reuniões e, para espanto até dos deuses, também na volta. quando a beleza em si mesma (aquela de platão) tropeça sem querer numa nuvem e deixa escapar um suspiro, aqui, no mundo sensível, ocorrem os acasos recorrentes e, nesse momento, somos como espectadores, sujeitos e objetos de um tipo de brincadeira do belo.