sexta-feira, 27 de abril de 2012

borracha

ele pediu para eu olhar a água. podia ser rio, mar e até água da torneira. beber água, pensar em água. então hoje sonhei que atravessava uma ponte sobre um rio e me lembrei que precisava olhar para a água. olhando para ela senti, no sonho, minha alma balançar e achei bom. pensei que era disso mesmo que eu precisava. como se precisasse de uma borracha que fosse apagando o contorno do desenho que vou traçando. não totalmente, só uns pedaços.

terça-feira, 24 de abril de 2012

palavrão

puta merda é muito diferente de puta que o pariu, de merda, de bosta, de é foda e de vá tomar no cu.e é espantoso como o falante usa cada uma dessas expressões com propriedade, agudeza, discernimento e intensidade, dependendo da circunstância. puta merda é geralmente usado quando algo resulta diferente do previsto e negativamente. puta que o pariu usa-se mais para se referir a alguém que tenha frustrado a expectativa do sujeito. já merda é um puta merda atenuado e bosta está praticamente no mesmo registro de desagradável ou chato. é foda é insubstituível em sua especificidade e se aplica com justeza a situações irremediáveis, provocando invariavelmente empatia e solidariedade por parte do receptor. vá tomar no cu está na mesma categoria de impossibilidade de substituição, pois não há no mundo xingamento mais prazeroso para quem o profere.

domingo, 22 de abril de 2012

beiral

eles se mexem, mas ficam mais parados.são engraçados, mas por pouco tempo. brincam, mas logo desistem. saem e voltam, saem e voltam. comem sentados, andam em pé e deitam-se para dormir. não entram dentro dos armários nem espiam no beiral das janelas. afagam-se com comedimento. não caçam, mas alimentam-se de caça. seus movimentos são duros e eles são barulhentos. gostam e, como que do nada, desgostam. não se lambem como nós, mas se molham para limpar-se. cospem. emitem sons de numerosas variações, ritmos, volumes e extensões: poucos são inteligíveis, embora eles pareçam entender-se. são muito instáveis: repetem e variam com frequências imprevisíveis.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

fusão

embora goste muito das narrativas fluentes, também sempre me senti atraída por aquela que os críticos chamam de literatura difícil - obscura, cifrada, experimental. octavio paz, no livro sobre marcel duchamp, o castelo da pureza, explica justamente que a arte fundida à vida - que todos sempre pensamos tratar-se da indistinção entre a biografia do artista e sua criação - pode também ser a arte difícil, porque é ela que obriga o leitor e o espectador a converter-se em um artista ou um poeta. o ciframento linguístico, contanto que carregado de intencionalidade, faz com que o leitor pare, demore, estude e reconstrua a linguagem e o conteúdo do texto. a arte, assim, necessariamente se funde à vida do leitor e não somente à do artista.

terça-feira, 17 de abril de 2012

sun yi



sun yi chi, a quarta soldada da primeira fila, contando da esquerda para a direita, acordou cansada. abotoou mecanicamente seu uniforme, engraxou os sapatos (que estão apertados por causa de um calo insistente), tomou o mingau com as colegas e saiu para o desfile. nesse instante exato, ela está pensando em seu pai, chon ho, que ontem, segundo lhe contaram, teve um mal-estar. ela também pensa nas montanhas, nas galinhas e na plantação de lavanda que ela deixou em pyoktong, a trezentos quilômetros de pyongyang, onde ela está agora.

sábado, 14 de abril de 2012

muito

por que será que a ideia de "muito", em português, pode ser expressa pelo advérbio "bem", como em "bem cansado" ou, o que é mais estranho "bem mal"? de onde vem a associação entre as noções de "muito" e de "bondade"? de maneira semelhante, em inglês, o advérbio "very" está relacionado à "vraie", que é verdade. deve ser por causa dos universais platônicos: o bem, o belo e a verdade. aproximar-se deles, ou que seja ao menos pronunciá-los, já dá a ideia de muito.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

segurança

teoria estapafúrdia com um pouco de lógica: se todos andarem com as janelas do carro abertas e se todas as casas tiverem muros baixos, ou melhor, muro nenhum, os ladrões pensarão que ninguém os teme porque, provavelmente, nada tem a perder. assim, a melhor medida de segurança é abolir por completo as medidas de segurança.