segunda-feira, 7 de maio de 2012

pulso

não se deve aceitar um falso cognato impunemente, como se fosse uma mera coincidência. sempre me intrigou por que push, em inglês, é empurrar e em português é trazer para junto de si, ou seja, o contrário, embora a palavra seja a mesma. ambas vem de pulsare, do latim, que é só movimento. acontece que os anglo-saxões entenderam movimento como mandar para a frente e os latinos como trazer para perto. como se vê, não há falso cognato, mas sim duas interpretações diferentes do mundo.

sábado, 5 de maio de 2012

si

mais do que a vida, dinâmica, a morte é que é a coisa em si, fixa. ir atrás da essência das coisas seria como ir atrás da morte que elas contêm. melhor não ir atrás, mas permanecer na superfície instável das coisas mutantes. porque mesmo a índole, a alma,o espírito, se existirem, também se transformam quando em contato com o ar.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

pijama

dentre as sensações físicas, a lágrima é o terno e a risada é o pijama.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

carioca

o rio de janeiro concorda com a vida: as pedras, os morros, o mar, o calçamento, o ritmo da marcha do carioca acompanham o andamento do corpo e da natureza. parece que lá as pessoas não andam, mas transladam-se. só a palavra carioca já se distende no tempo, tão diferente de paulista, que é nominalmente associado a são paulo. carioca. queria ser carioca por um dia, rodar em torno do sol e depois voltar para o rio tietê, onde os deslocamentos são maquínicos, artificiais.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

borracha

ele pediu para eu olhar a água. podia ser rio, mar e até água da torneira. beber água, pensar em água. então hoje sonhei que atravessava uma ponte sobre um rio e me lembrei que precisava olhar para a água. olhando para ela senti, no sonho, minha alma balançar e achei bom. pensei que era disso mesmo que eu precisava. como se precisasse de uma borracha que fosse apagando o contorno do desenho que vou traçando. não totalmente, só uns pedaços.

terça-feira, 24 de abril de 2012

palavrão

puta merda é muito diferente de puta que o pariu, de merda, de bosta, de é foda e de vá tomar no cu.e é espantoso como o falante usa cada uma dessas expressões com propriedade, agudeza, discernimento e intensidade, dependendo da circunstância. puta merda é geralmente usado quando algo resulta diferente do previsto e negativamente. puta que o pariu usa-se mais para se referir a alguém que tenha frustrado a expectativa do sujeito. já merda é um puta merda atenuado e bosta está praticamente no mesmo registro de desagradável ou chato. é foda é insubstituível em sua especificidade e se aplica com justeza a situações irremediáveis, provocando invariavelmente empatia e solidariedade por parte do receptor. vá tomar no cu está na mesma categoria de impossibilidade de substituição, pois não há no mundo xingamento mais prazeroso para quem o profere.

domingo, 22 de abril de 2012

beiral

eles se mexem, mas ficam mais parados.são engraçados, mas por pouco tempo. brincam, mas logo desistem. saem e voltam, saem e voltam. comem sentados, andam em pé e deitam-se para dormir. não entram dentro dos armários nem espiam no beiral das janelas. afagam-se com comedimento. não caçam, mas alimentam-se de caça. seus movimentos são duros e eles são barulhentos. gostam e, como que do nada, desgostam. não se lambem como nós, mas se molham para limpar-se. cospem. emitem sons de numerosas variações, ritmos, volumes e extensões: poucos são inteligíveis, embora eles pareçam entender-se. são muito instáveis: repetem e variam com frequências imprevisíveis.