sábado, 9 de junho de 2012

gaveta

giacometti disse que poderia ficar eternamente pintando uma única cadeira, porque qualquer objeto é infinito e irretratável. o mesmo vale para a literatura: é possível escrever sobre uma maçaneta, um pelo, uma gaveta, infindavelmente. e o que é pior (ou melhor): nunca é possível encontrar a palavra certa para se dizer qualquer coisa, nem mesmo gaveta para uma gaveta. cada palavra que se usa pode ser sempre substituída por outra melhor.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

choro

não sei se é a aproximação lenta, mas certa, da velhice; se é o outono; se é a ideia de que os filhos inevitavelmente partem; se é a mesa posta, a casa arrumada; se são a segurança e insegurança acumuladas; se é a torta de tâmaras que comi faz três meses, mas tenho chorado como o diabo, por qualquer coisa que nem lembra alguma emoção. ontem, só de ver o luis tatit caminhando pela rua, carregando sua mala de professor, comecei a chorar. mas, pensando bem, existe algo mais emocionante do que uma pessoa tão linda, com a música brasileira dentro da mala, caminhando na rua numa noite de chuva?

terça-feira, 5 de junho de 2012

erros

erros de português que adoro cometer: colocar alguma coisa "de assim"; isso é só "entre eu e você"; vou assistir "o" jogo; quero ir "no" banheiro; prefiro isso "do que" aquilo; o peixe tem "espinho" e o melhor de todos, que deveria ser considerado correto, em nome do amor: "fica comigo".

sábado, 2 de junho de 2012

amor

você não se parece nem um pouco com um luar branco sob uma nuvem acinzentada, ou um jaguar correndo na selva, um tronco perdido no monte, uma onda se aproximando da praia, uma folha em branco esperando ser preenchida, um perfume de malva antigo, uma brisa leve que entra pela janela, uma chama pequena que sobrou,os olhos espertos de um gato. você não se parece mesmo com nada disso. você parece mais um sapato.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

maturidade

tive medo de olhar. achei que se demorasse um pouco, quem sabe a coisa ganhasse o aspecto que eu queria. enquanto não olhasse, ela poderia ser boa ou ruim. depois, ela seria definitivamente o que era. achei que, dependendo do meu humor, ela se converteria necessariamente em positiva, se é que já não o fosse. entrementes, pensei que isso de nada adiantaria. ela já era o que seria, mesmo antes de eu olhá-la. então decidi olhar, com decisão e maturidade. logo que a vi de relance, entretanto, já entendi que era ruim. olhei até o final e era pior ainda. estremeci um pouco. virei o rosto e quis esquecer. não pude e sei que vou lembrar por algum tempo, com um peso ainda maior do que aquele que a coisa tinha. agora, vou convertê-la em mais do que ela é. ela, que é só o que é, para mim sempre será menos ou mais.

terça-feira, 29 de maio de 2012

ópera

se eu já conheci uma vendedora de cosméticos búlgara em dallas e um cantor de ópera romeno, gay e gago, em varsóvia, fico pensando: será que existe um pipoqueiro jamaicano na turquia? uma advogada criminalista peruana em uganda? um percussionista manco e coreano na austrália?

domingo, 27 de maio de 2012

coisas

quando nada está acontecendo, a célia, a elizabete, o elias, a maria josé, a rosevane, a geni, a sebastiana, a alzenir, a santa, a maria neide, a juciara,a zenilda, o joel, a maria das neves, a demétria, a salete, a quitéria, a elenilza, o alessandro e a luciana, alunos e professora do supletivo do colégio santa cruz, que estão lendo meu livro, me deixaram muito feliz e agradecida. obrigada por me ensinarem tantas coisas.