sábado, 14 de julho de 2012
eu
eu mandou ver se eu estava lá na esquina. eu foi e não o encontrou. quis voltar. mas eu não suporta mais eu, que interfere em tudo o que eu faz; eu opina, quer e, o que é pior, acha. eu acha sem parar. quando alguém diz qualquer coisa sobre si, eu quer dizer também. e eu simplesmente não aguenta mais isso. por favor, eu, vá ver se eu está lá na esquina e se eu não estiver, vá para outra freguesia, esqueça que eu existe. deixa eu em paz.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
entretenimento
perguntaram a jonathan franzen se a função da literatura é entreter. com ressalvas, ele acabou dizendo que sim. costumo atribuir a esta suposta "função" da literatura o papel de algo menor; digamos que inevitável. digo que sempre prefiro o perturbador ao divertido. mas se entreter, divertir e deleitar forem entendidos etimologicamente, como "manter entre", "desviar-se" e "obter delícia", então tudo muda. a literatura é mesmo o que nos mantém entre dois lugares: não somente no ficcional (o que seria o entretenimento menor),mas também no real. a ficção nos lança de volta ao real de maneira nova, esquisita, outra. é também o que nos desvia do conhecido e que, com isso, com essa localização fronteiriça e esse estranhamento, nos delicia.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
violão
logo que conheci o joão, me apaixonei, entre outras coisas, pelo fato de ele tocar violão tão bem. no mesmo ano lançaram, na rádio eldorado, um concurso para ganhar um violão igual ao que o gilberto gil tocava na época. mandei umas cinquenta cartinhas. como era proibido um mesmo nome concorrer mais de uma vez, pedi que todos os meus conhecidos enviassem. e um dia, no rádio, escutei: o vencedor do concurso "ganhe o violão de gilberto gil" é noemi jaffe. exultei por ganhar o violão e por ouvir meu nome na voz daquele locutor. o ganhador teria direito ao autógrafo de gil no próprio violão, algo que já nos constrangia só em pensamento. recusamos o autógrafo. o violão também não era lá essas coisas, mas como foi bom.
terça-feira, 3 de julho de 2012
pingo
o pingo está bem velhinho, surdo, meio cego, fraco das pernas e um pouco esclerosado. fica andando sem parar, pra lá e pra cá, desgovernado e carente. quando saio para a rua, fico pensando nele dentro de sua casinha. provavelmente, ele não está pensando em nada e nem sofrendo. mas ele está lá e tem um ser, algum tipo de individualidade só sua. o que o constitui? como é o seu ser velho? como estar junto de sua solidão velha e atendê-lo nas necessidades que ele mal sabe expressar, além de olhar e andar? a velhice explode como a condição de um eu vazio, como que pedindo: seja por mim. sua velhice me faz pensar na minha.
sábado, 30 de junho de 2012
sucesso
algo que pode simplificar muito a histeria do sucesso é saber que a palavra sucesso, assim como evento e ocorrência, é sinônimo de acontecimento. o bom sucesso, portanto, é não mais (e isso não é pouco) do que deixar acontecer.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
conjunção
em literatura, não suporto conjunções. como elas exercem descaradamente a função de encadear pensamentos lógicos, elas sempre acabam se tornando muletas, atalhos para facilitar um caminho que, dito de outra forma, seria mais belo. por exemplo: "conforme o cartaz, a casa estava à venda". a palavra "conforme" introduz o mundo dos formulários na narrativa e corta o caminho concreto, aludindo a uma conjectura. conforme, na verdade, não é nada. não é muito melhor, no lugar dessa frase terrível, dizer algo como: "eu queria comprar aquele sobrado"? e no lugar de "embora cansada, ela foi à festa", não é melhor dizer "ela foi a festa morta de cansaço"? afinal, o que é embora?
segunda-feira, 25 de junho de 2012
diálogo
num caderno de anotações antigas, encontrei a transcrição de um diálogo de augusto monterroso, autor de quem gosto muito:
-do you?
-very.
é estranho,mas estava lendo em inglês um livro de um autor espanhol. este diálogo fabuloso me parece intraduzível para o espanhol ou para o português e quero levá-lo comigo no bolso e usá-lo sempre. "do you" é uma espécie de "você faz?", "você é?", "você quer?", "você tem?" e "very" - que significa muito e verdadeiramente - é sem dúvida a melhor resposta para todas essas perguntas.
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