segunda-feira, 6 de agosto de 2012

saída

a grande glória de dizer solenemente que a vida não tem saída. oh! que coragem! isso, na verdade, é nada mais do que um escudo poderoso para justificar sofisticadamente o egoísmo, tornando-o algo maduro. vamos, aproveite seu egoísmo, porque eu afirmo do alto de meus diplomas que a vida não tem sentido. pois olhe aqui: que a vida não tem sentido nem saída qualquer monge budista, qualquer padre de paróquia sabe. mas é isso justamente o que deveria explicar nossa louca oscilação entre buscar o nosso bem e buscar o bem comum, que, aliás, não são excludentes. quem sabe que as coisas não têm mesmo sentido e ainda assim luta por algum ideal (mesmo que tosco e tonto), é muito mais genuíno, efetivo e capaz de realmente agir do que os irônicos desdenhadores do bem. o que eles fazem é auto-ajuda para quem diz que não gosta de auto-ajuda.

sábado, 4 de agosto de 2012

ludwig

a viúva de schiller foi visitar um conservatório em colonne. o professor disse a ela que havia lá um aluno completamente obcecado pelo poema ode à alegria, de seu falecido marido. a esposa foi conhecer o jovem ludwig que, emocionado, lhe prometeu que escreveria algo grandioso em homenagem àquele poema. imaginar a iminência da nona sinfonia, a quase existência do que já existe e que dá sentido à vida, é da ordem do maravilhoso.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

fronteira

à noite, na imensidão de uma vigília súbita, sobrevém uma angústia sem nome nem substância. ela se confunde com a noite, com as manchas da luz, com o sonho recente que já está se desfazendo. ela é a moradora adormecida da minha alegria; dela minha alegria se abastece. enquanto estou bem acordada, a angústia dorme. quando durmo, muitas vezes ela acorda e me sustenta. mas na fronteira inadvertida entre dormir e acordar, ela se avoluma. aperto o travesseiro.

terça-feira, 31 de julho de 2012

letra (post hesitante)

é claro que é absurdo idealizar o não letramento do sertanejo mais velho e relacionar diretamente a isso sua sabedoria sobre a natureza e a existência. mas algo que percebo é que, com a aquisição do letramento, adquire-se também uma espécie de figurativização do real que diminui a capacidade de integração orgânica entre a imaginação, a inteligência e os sentidos. o mundo passa a ganhar contornos letrados, as coisas passam a ganhar significados mais claros e definidos. tudo recebe limites. é o destino da letra e do pensamento representativo. acho que os responsáveis pelo letramento das crianças deveriam, cada vez mais, levar em conta possibilidades de integrar o pensamento mágico - sem limites, não representativo, alógico - ao ensino do alfabeto e dos significados das palavras. tenho medo de que, num mundo de correspondência unívoca entre significantes e significados, percam-se os sacis, as uiaras e as simpatias sem pé nem cabeça.

domingo, 29 de julho de 2012

morada

por que, em inglês, viver e morar são ambos traduzidos por "to live"? será que a tradição anglo-germânica protestante os fez acreditar que não é possível viver sem morar? como é opressora essa fúria aplicativa da língua. deixa, deixa, deixa as pessoas viverem sem morar um pouquinho.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

novidade

enquanto herdeiros e pseudo-herdeiros de marshall mcluhan se debatem atrás do que fazer para lidar com a quantidade de novidades que surgem a cada minuto, o pretinho, aqui de morro da garça, resolveu melhor: o jornal pode ser de uma semana, até de um mês atrás. se eu não li, ainda não aconteceu. uma coisa é sempre nova enquanto a gente não lê. só depois que a gente lê é que ela fica velha.

domingo, 22 de julho de 2012

dezessete

o antropólogo islandês eiour smari guojohnsen descobriu, após longas e profundas pesquisas, que, numa ilha a noroeste da islândia, de nome asgrims, os habitantes não estabelecem as divisões da natureza e do mundo a partir de pares, como fazem todos os povos da terra, mas a partir de grupos de dezessete. assim, se alguém deseja tomar um banho, há dezessete e não duas ou três gradações, como frio, morno e quente. as temperaturas variam em: extremamente gélido, altamente gélido, gélido, extremamente frio, muito frio, frio, na passagem de frio para morno, quase morno, morno, na passagem de frio para quente, quente, muito quente, extremamente quente, pelando, altamente pelando, extremamente pelando e em estado de fogo. da mesma forma, estabelecem-se graus para o dia e a noite, a confiabilidade de uma pessoa, a madureza de uma fruta, a qualidade de um alimento. eiour relata que a comunicação, em função dessa divisão, é tão lenta e trabalhosa, que os habitantes de asgrims preferem permanecer calados a maior parte do tempo. parece que essa é uma das razões por que eles parecem sempre tão satisfeitos.