segunda-feira, 3 de setembro de 2012
chiça
tenho tamanho desprezo por essa pessoa, que me recuso até a dizer seu nome. acontece que, ao recusar-me a isso, dou a ele uma importância que ele não tem. mas, se para não lhe dar essa importância, digo o nome, sinto minha boca se sujar. o nome cola na língua, gruda na gengiva. preciso encontrar um apelido à altura de sua pequenez, sem que isso dê a impressão de que ele é desprezivelmente importante para mim, ou importantemente desprezível. seu apelido, portanto, a partir de hoje, será "reles". e quando eu ouvi-lo falando ou tiver que ler o que ele escreve, direi: vá à fava! vá bugiar! vá à tabua! uxte! chiça! fu! cebolório! irra! passa fora, reles!
sábado, 1 de setembro de 2012
ausência
ideia para resolver uma ausência de ideias para escrever: olhe para sua esquerda. qual é a primeira coisa que você vê? eu vejo um interruptor. vá ao google e pesquise: interruptor. eu fui e encontrei um site com o título: "onze modelos de interruptores com diferentes funções". uma frase diz assim: "é o futuro dos interruptores na sua casa". pensei como é triste que os interruptores tenham um futuro e que ele venha parar na minha casa. também pensei que interruptor é aquilo que interrompe a passagem de energia. então pronto. já tenho o começo do meu conto: "um pequeno fluxo de energia vinha passando em seu movimento aleatório habitual, quando foi subitamente interrompido e redirecionado para um bulbo metálico. era o futuro e o fluxo se entristeceu."
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
arroz
é melhor: um abraço do que o amor; um sim do que a verdade; um papagaio do que a natureza; um olhar do que a honestidade; uma panela de arroz do que a solidariedade.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
ar
na idade média, dividiam-se os humanos de acordo com o líquido que predominava em seu organismo. eram o humor vermelho, o amarelo, o negro e o branco. para cada humor, um tipo de personalidade: a colérica, a melancólica, a mórbida e a apática. já meu pai, em tudo mais prático, facilitou as coisas: quando não gostava de alguém por considerá-lo apático, dizia que a pessoa era luft inspektor, ou inspetor de ar.
sábado, 25 de agosto de 2012
amarelo
no fundo, no fundo, mas bem no fundo mesmo, não há nada. a grande verdade de uma alma, o segredo único de uma obre de arte não existem. superfície e fundo se misturam permanentemente, em processos de sobredeterminação contínua. uma mania, coçar o dedo, por exemplo, não revela ansiedade ou o que quer que seja. coçar o dedo está relacionado a algum traço da psique que nunca poderá ser isolado. da mesma forma, a psique também se deixa moldar pela coceira do dedo, que passa a transformá-la. o grande segredo, mas o misterioso e único segredo do amarelo de van gogh é ele ser amarelo. além disso, mais nada.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
halteres
na rádio ouço a propaganda de uma escola "forte". uma criança diz que é forte em matemática, outra em desenho e outra em português. ao final, o texto diz que a escola é forte em ensinar. por que chegou-se a essa ideia nefasta de ensino forte? por que associar conteúdo a força, já que escola forte é aquela que "puxa" no conteúdo? por que não pensar em escolas que ensinam os alunos também a serem fracos quando necessário? onde a ideia de que conteúdo não é halteres?
sábado, 18 de agosto de 2012
espera
eu sou a espera. estou: no botão da sua camisa; nas cerdas da escova de dentes; na borra do café; na composição química do remédio; no pé de ameixa; no bico do papagaio; no poliestileno; na bola de ping-pong; no seu pé.
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