quarta-feira, 31 de outubro de 2012

sombra

em linha de sombra, joseph conrad diz que "o calor do oriente tropical descia por entre os galhos folhudos, envolvendo meu corpo coberto de roupas leves, agarrando-se ao meu rebelde descontentamento, como que para roubá-lo de sua liberdade". sim, como é livre o rebelde descontentamento.

domingo, 28 de outubro de 2012

pardal

aqueles dois filhotes de pardal, num canteiro lateral da avenida sumaré, não sei se estavam se beijando ou passando comida um para o outro.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

barraca

tenho lido muitos livros razoáveis. bem escritos, com boas histórias. alguns, inclusive, premiados. mas não consigo entender o porquê de tanta correção linguística, construtiva e temática. como partidária convicta da função ética que a novidade exerce na arte, no sentido de apresentar o outro aos outros, de mostrar o mesmo a partir de outros lugares, de terminar um livro de forma diferente do que se começou, não posso aceitar tanta razoabilidade. dá para chutar mais o pau da barraca?

sábado, 20 de outubro de 2012

organização

na gaveta inferior direita, estão os recibos de restaurantes frequentados em dois mil e onze; na gaveta inferior intermediária, estão os recibos de consultas médicas frequentadas em dois mil e onze; na gaveta inferior esquerda, estão os ingressos de cinema frequentados em dois mil e onze; na gaveta intermediária direita, estão os recibos de compras de supermercado feitas em dois mil e ooonze; na gaveta intermediária intermediária estão os lápis usados em dois mil cento e onze; na gaveta intermediária esquerda, estão os restaurantes dos canhotos frequentados em dois mil e onze; na gaveta superior direita, estão os remédios dos recibos tomados em dois mil e onze; na intermediária superior gaveta, os chaves dos gastos das portas estão em dois mil e onze; esquerda gaveta na superiora, os frascos dos buracos não sabe quando, mais de dois mil.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

yir

ir, pela língua, a lugares que não conhecemos. falar vaciniáceo, kwarmatwi, labaça-obtusa e gabarolas. ouvir línguas que não sabemos: dungidjau, yir yoront, apolista e krenjê. rimar éter com suéter e ridículo com tico-tico. ouvir só a prosódia das conversas. imitar as falas dos outros. repetir, repetir. dar nomes errados aos objetos e estabelecimentos: açougue, que palavra absurda. juntar palavras para formar novos substantivos: nariz-cadeira e pó-pé. aproximar significados pelos sons: chuva e luva, crocante e credo. não entender, nunca, o que significa ativo líquido.

domingo, 14 de outubro de 2012

teoria

o querer dela não tinha objeto. o que ela queria mesmo era sempre e só querer. então não tinha jeito de ela ficar satisfeita. porque, se acontecia o que ela dizia que queria, não dava mais para querer. daí era aquela lenga-lenga, aquele chororô danado e toda uma teoria para justificar por que aquilo que ela tinha dito que queria, não era bom nem verdadeiro o bastante. mas era sim. ela que não percebia. coitada.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

it

a hipótese pode ser estapafúrdia, mas é poética: a impossibilidade, em inglês, de criar orações sem sujeito e sem predicado, é que faz dos americanos e dos ingleses povos tão mais pragmáticos do que os falantes do português, por exemplo. afinal, com essa exigência, torna-se sempre necessário saber quem agiu, quem sofreu a ação, de onde se veio, para onde se vai. como deve ser difícil não poder dizer simplesmente: chove. por quê e para quê: "it rains?", uma espécie de "isto chove"? e a dor, então, de não poder dizer "eu sinto", "eu preciso", "eu quero", mas sempre "i feel it", "i need it", "i want it". por uma gramática dessubjetivizada e desobjetivizada, abaixo os its!