terça-feira, 6 de novembro de 2012

causa

você aí, que está lançando dois livros no próximo dia treze, a partir das dezenove e trinta, na amoreira, que fica na rua dos macunis, número quinhentos e dez, com leituras de trechos dos livros por várias pessoas que você admira: convença-se: o mundo continua o mesmo e tudo vai dar certo. são paulo não vai parar por sua causa.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

tuip

ah, como eu queria ser um ferreirinho-relógio. comeria gramíneas, faria ninhos em formato de xícara e, quando a fêmea se aproximasse eu cantaria, feito um relojoeiro: tuip, tuip. mas, maria, agora eu pensei: acho que não é esse o barulho que fazem os relojoeiros.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

sombra

em linha de sombra, joseph conrad diz que "o calor do oriente tropical descia por entre os galhos folhudos, envolvendo meu corpo coberto de roupas leves, agarrando-se ao meu rebelde descontentamento, como que para roubá-lo de sua liberdade". sim, como é livre o rebelde descontentamento.

domingo, 28 de outubro de 2012

pardal

aqueles dois filhotes de pardal, num canteiro lateral da avenida sumaré, não sei se estavam se beijando ou passando comida um para o outro.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

barraca

tenho lido muitos livros razoáveis. bem escritos, com boas histórias. alguns, inclusive, premiados. mas não consigo entender o porquê de tanta correção linguística, construtiva e temática. como partidária convicta da função ética que a novidade exerce na arte, no sentido de apresentar o outro aos outros, de mostrar o mesmo a partir de outros lugares, de terminar um livro de forma diferente do que se começou, não posso aceitar tanta razoabilidade. dá para chutar mais o pau da barraca?

sábado, 20 de outubro de 2012

organização

na gaveta inferior direita, estão os recibos de restaurantes frequentados em dois mil e onze; na gaveta inferior intermediária, estão os recibos de consultas médicas frequentadas em dois mil e onze; na gaveta inferior esquerda, estão os ingressos de cinema frequentados em dois mil e onze; na gaveta intermediária direita, estão os recibos de compras de supermercado feitas em dois mil e ooonze; na gaveta intermediária intermediária estão os lápis usados em dois mil cento e onze; na gaveta intermediária esquerda, estão os restaurantes dos canhotos frequentados em dois mil e onze; na gaveta superior direita, estão os remédios dos recibos tomados em dois mil e onze; na intermediária superior gaveta, os chaves dos gastos das portas estão em dois mil e onze; esquerda gaveta na superiora, os frascos dos buracos não sabe quando, mais de dois mil.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

yir

ir, pela língua, a lugares que não conhecemos. falar vaciniáceo, kwarmatwi, labaça-obtusa e gabarolas. ouvir línguas que não sabemos: dungidjau, yir yoront, apolista e krenjê. rimar éter com suéter e ridículo com tico-tico. ouvir só a prosódia das conversas. imitar as falas dos outros. repetir, repetir. dar nomes errados aos objetos e estabelecimentos: açougue, que palavra absurda. juntar palavras para formar novos substantivos: nariz-cadeira e pó-pé. aproximar significados pelos sons: chuva e luva, crocante e credo. não entender, nunca, o que significa ativo líquido.