sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
metáfora
já desconfio há algum tempo que, na verdade, todas as figuras de linguagem são variações da metáfora, compreendendo metáfora no sentido de co-ordenação simbólica, ou um símbolo cuja função é ocupar, com o mesmo valor, o lugar de outro objeto (ou semantema). senão, vejamos: hipérbole: metáfora do exagero; eufemismo: metáfora da atenuação; aliteração: metáfora sonora; antítese: metáfora da oposição; onomatopeia: metáfora de imitação sonora; pleonasmo: metáfora da repetição, e por aí vamos. mas e a metonímia, adversária aparentemente feroz da metáfora, sua rival filosófica, já que parte da lógica, enquanto a metáfora seria só símbolo? ela que não fique se achando, porque, se bobear, é um tipo de metáfora também, já que sua lógica, me perdoem os linguistas, não é tão lógica assim.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
flecha
um dos títulos que cogitei para meu último livro, "o que os cegos estão sonhando", era "a flecha tardia", expressão que encontrei num poema de paul celan, talvez o único poeta que conseguiu, mais do que falar sobre a guerra, dizê-la. desisti porque soava solene e artificial para o propósito do livro. mas sempre que revejo "a flecha tardia" sei que ainda vou usá-la: pegá-la aqui, no futuro daquele tempo, ela que foi atirada às cegas como quem joga uma garrafa no mar; ela que não foi atirada mas que apareceu aqui, agora; ela cujo caminho carrega o século em si. todo remetente encontra, enfim, um destinatário; mesmo que não seja aquele que imaginou, nem no lugar, nem no tempo.
sábado, 1 de dezembro de 2012
raiva
o cara faz assim: não tem coragem de terminar um relacionamento; diz para si mesmo e para várias outras pessoas (secretamente) que é por compaixão pela outra pessoa, não quer magoá-lo(a), há filhos, tantas histórias. em função dessa pretensa generosidade, fica com pena de si mesmo, pois se sacrifica pelo outro(a). isso, é claro, faz com que ele fique com muita raiva do outro(a), por praticamente obrigá-lo a sacrificar-se por ele(ela). isso piora ainda mais o relacionamento, que acaba explodindo, claro que por culpa do outro(a), que não sabe nem reconhecer o esforço dele em permanecer e fazer tudo para ficar junto. o relacionamento acaba e o cara fica para sempre morrendo de pena de si mesmo, pois tentou de tudo, de tudo mesmo, mas não deu e o outro(a) ainda o culpa injustamente.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
um poema de sucesso
que seja top no twitter,
que dê para cobrar ingresso
e que ao francês diga oui; ter
mil fãs no facebook,
ser parada no youtube,
ganhar rivais só no muque
fundar um aeroclube.
mas o blog perde a métrica
e não sabe separar versos
e tem a questão estética
e os conceitos diversos.
melhor é deixar mais quieto
e seguir na lida dura;
ser um sucesso incompleto
dessa vã arquitetura.
domingo, 25 de novembro de 2012
arte
um dos muitos milagres da arte - e aqui penso em milagre como maravilhamento mesmo; aquilo que se vê e que espanta - é que, quando nos sentimos tocados por uma obra, ela foi, sem dúvida alguma, feita especial e exclusivamente para você. sem deixar de ser universal - e isso conta ainda mais para o destinatário único - ela é apaixonadamente singular. e isso não quer dizer que ela tenha sido feita para qualquer um que olhar para ela. isso vale só para você. e vai-se para casa sendo dono absoluto de um monet, um matisse, um arp (que esse, sem dúvida, fez tudo só para mim e para ninguém mais).
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
fidel
o genial poeta chico alvim lembrava que, numa ocasião, ainda nos anos 60, encontrou-se acidentalmente, num elevador, com fidel castro e che guevara. enlouquecido com essas presenças, tentou se comunicar e diz que fidel foi muito simpático e caloroso, mas que che se manteve distante e desconfiado. clarinha, mulher de chico, ouve a história e diz: chico, esse encontro nunca aconteceu. você está sonhando. chico diz: é, clarinha, pode ser. o che é mesmo absurdo. mas deixa eu sonhar que encontrei o fidel, vai.
domingo, 18 de novembro de 2012
pronome
a confusão pronominal do português é complicada, mas, por vezes, pode ser literariamente interessante.por exemplo: a mãe perguntou à filha se ela gostava dela. essa frase é ambígua e é preciso reformulá-la para que se conheça quem é ela e quem é dela. mas, num certo sentido, essa ambiguidade é boa e a frase pode ganhar com essa indecisão. se fosse eu, manteria desse jeito mesmo, porque, afinal, essa mãe não está entendendo nada.
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