quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

fila

atrás de mim, na fila do supermercado, uma japonesa de meia-idade espia para ver se a fila está grande. digo a ela que é rápido e, pela resposta, percebo que ela fala português com dificuldade. ela olha uma revista "nova" com a deborah secco pelada na capa e diz: é jovem, né, bonita, precisa ficar pelada porque depois de velha cai tudo, né? eu digo: ah, mas tem vantagens em envelhecer também! ela toma um susto, dá um pulinho, me olha com os olhos bem arregalados e diz, hesitante, com a boca entreaberta: - qual?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

falácia

um texto mais longo para variar e também para tentar mostrar a falácia das generalizações de alguém que se diz filósofo. o que fiz foi somente dizer as mesmas coisas que foram ditas em sua coluna de hoje,dez de dezembro de dois mil e doze, só que ao contrário.

A "má qualidade de vida" é uma das novas formas de liberalidade, sendo o machismo uma outra (o machismo é a nova libertação da sexualidade).

A infelicidade e o mal-estar são as chaves da vida contemporânea. Vale tudo para ser infeliz. Uma época dominada pela infelicidade é uma época legal.

Para mim, pessoa que confia em quem passa a vida querendo ser infeliz, isso tudo parece ótimo.

O principio não utilitarista afirma que o homem foge do prazer e busca a dor (o mal-estar). Logo, devemos fazer uma sociedade que vise produzir em larga escala a infelicidade, a dor e o mal-estar.

E chegamos ao nosso mundo de gente que sonha em ficar com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, e sem saúde.

A vida e a sociedade dominadas pela busca do mal-estar parecem tornar o homem mais homem.

 "Individualidade, não identidade, instabilidade." Slogan que salvaria o mundo para o qual seguimos a passos largos com esse não utilitarismo social em que vivemos, com um descontrole cada vez maior dos gestos, do pensamento e dos hábitos.

Toda a cultura não utilitarista está cheia de amor à felicidade individual e de ódio à comunidade. O pesadelo totalitário passou.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

metáfora

já desconfio há algum tempo que, na verdade, todas as figuras de linguagem são variações da metáfora, compreendendo metáfora no sentido de co-ordenação simbólica, ou um símbolo cuja função é ocupar, com o mesmo valor, o lugar de outro objeto (ou semantema). senão, vejamos: hipérbole: metáfora do exagero; eufemismo: metáfora da atenuação; aliteração: metáfora sonora; antítese: metáfora da oposição; onomatopeia: metáfora de imitação sonora; pleonasmo: metáfora da repetição, e por aí vamos. mas e a metonímia, adversária aparentemente feroz da metáfora, sua rival filosófica, já que parte da lógica, enquanto a metáfora seria só símbolo? ela que não fique se achando, porque, se bobear, é um tipo de metáfora também, já que sua lógica, me perdoem os linguistas, não é tão lógica assim.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

flecha

um dos títulos que cogitei para meu último livro, "o que os cegos estão sonhando", era "a flecha tardia", expressão que encontrei num poema de paul celan, talvez o único poeta que conseguiu, mais do que falar sobre a guerra, dizê-la. desisti porque soava solene e artificial para o propósito do livro. mas sempre que revejo "a flecha tardia" sei que ainda vou usá-la: pegá-la aqui, no futuro daquele tempo, ela que foi atirada às cegas como quem joga uma garrafa no mar; ela que não foi atirada mas que apareceu aqui, agora; ela cujo caminho carrega o século em si. todo remetente encontra, enfim, um destinatário; mesmo que não seja aquele que imaginou, nem no lugar, nem no tempo.

sábado, 1 de dezembro de 2012

raiva

o cara faz assim: não tem coragem de terminar um relacionamento; diz para si mesmo e para várias outras pessoas (secretamente) que é por compaixão pela outra pessoa, não quer magoá-lo(a), há filhos, tantas histórias. em função dessa pretensa generosidade, fica com pena de si mesmo, pois se sacrifica pelo outro(a). isso, é claro, faz com que ele fique com muita raiva do outro(a), por praticamente obrigá-lo a sacrificar-se por ele(ela). isso piora ainda mais o relacionamento, que acaba explodindo, claro que por culpa do outro(a), que não sabe nem reconhecer o esforço dele em permanecer e fazer tudo para ficar junto. o relacionamento acaba e o cara fica para sempre morrendo de pena de si mesmo, pois tentou de tudo, de tudo mesmo, mas não deu e o outro(a) ainda o culpa injustamente.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

facebook

um poema de sucesso que seja top no twitter, que dê para cobrar ingresso e que ao francês diga oui; ter mil fãs no facebook, ser parada no youtube, ganhar rivais só no muque fundar um aeroclube. mas o blog perde a métrica e não sabe separar versos e tem a questão estética e os conceitos diversos. melhor é deixar mais quieto e seguir na lida dura; ser um sucesso incompleto dessa vã arquitetura.

domingo, 25 de novembro de 2012

arte

um dos muitos milagres da arte - e aqui penso em milagre como maravilhamento mesmo; aquilo que se vê e que espanta - é que, quando nos sentimos tocados por uma obra, ela foi, sem dúvida alguma, feita especial e exclusivamente para você. sem deixar de ser universal - e isso conta ainda mais para o destinatário único - ela é apaixonadamente singular. e isso não quer dizer que ela tenha sido feita para qualquer um que olhar para ela. isso vale só para você. e vai-se para casa sendo dono absoluto de um monet, um matisse, um arp (que esse, sem dúvida, fez tudo só para mim e para ninguém mais).