segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
não
a moça do caixa do sacolão estava triste. eu queria perguntar por que, queria dizer a ela que vai passar, independente do que seja. também quis contar toda a minha vida para uma mulher que vi no metrô e que sabia que, caso a conhecesse, seríamos grandes amigas. as melhores. do mundo. quis convidar um casal para jantar na minha casa, quem sabe toda semana. eu faria ossobuco. muito ossobuco. não fiz nada disso. toda hora estou não fazendo muitas coisas.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
gal
a melhor palavra em que consigo pensar para descrever o show recanto, com gal costa, é trágico, no sentido de uma coisa que concilia exaltação e destruição; vida, morte e ressureição; desafio aos deuses e submissão; criação pagã e religiosa; queda e superação; gênio e barbárie; cosmopolitismo e nacionalidade;velhice e juventude; união e separação. saio do show orgulhosa de ser brasileira, de ter pertencido e ainda pertencer a essa história e a esse momento da música popular brasileira e, mais uma vez, como tantas na minha vida, confiante de que o mundo tem saída. não importa que não tenha. agora tem e isso basta.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
amor
o amor não está aqui nem está alhures. o amor não tem algo a dizer. não pergunte nada ao amor. não o procure no fundo de nada; ele sempre está na superfície. principalmente não o procure. mas também não espere que se você não o procurar, vai encontrá-lo. não morra de amor. o amor não é uma entidade: não exige respeito nem homenagens. ele não tem autonomia para abater-se sobre quem ele bem quiser, porque ele não é uma coisa em si. ouça. agora mesmo. ele está falando.você escutou? não?
sábado, 29 de dezembro de 2012
aparecimento
o a de aparecer é a potência transformada em ato. como com a manhã o amanhecer, com a noite o anoitecer, também é assim com o parecer que, acrescido do a, vem à luz. apareceremos!
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
família
abrão tinha três mulheres, traiu a principal com uma escrava e, assim que a escrava engravidou, expulsou-a de casa. isaac tinha dois filhos, sendo que um deles, às vésperas da morte do pai, o enganou, fingindo ser o outro irmão que, aliás, era o preferido. já jacó, por sua vez, gostava mais de josé, o caçula, que foi vendido pelos irmãos a um mercador. jesus era filho de uma virgem, nunca se casou e tinha uma história enrolada com madalena. daí os caras vêm falar de família normal. família que, por sinal, quer dizer, em latim, agrupamento de fâmulos, ou servos. ah, gente, vão se catar.
sábado, 22 de dezembro de 2012
deus
tenho, talvez a despeito de mim mesma, algo como um sentimento religioso. acontece que, para mim, deus, além de habitar dentro, e não fora do eu, ainda contém boas doses de medo, raiva, orgulho, inveja e vaidade. sinto, e não penso, que só assim essa ideia de deus é capaz de nos proteger, que é o que mais queremos dele. pois somos pó e só algo que aceite, contenha e que também seja pó pode estar conosco.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
gúgou
freud descreveu os procedimentos do sonho como sendo de deslocamento e condensação. da mesma forma, o gúgou é também um sonho: desloca e condensa. estamos acordados numa hipnose
vulcânica, um sonambulismo réptil. somos nós os mestres e o conteúdo desse sonho falaz e alegre, com cintos de couro, viagens para a malásia, verdi,
cantatas, buracos de ozônio, tratores para a lavoura de uvas, cinquentenário de
poetas, maldições dantescas e eu.
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