quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

nós

a tendência -inclusive minha - é achar que os sinais do inconsciente (os sonhos, os deslizes, os atos falhos) é que revelam a verdade de algum mítico "eu". mas por que não pensar que as formas como o ego, a razão, a inteligência, sei lá, contornam e administram o inconsciente também fazem parte desse mesmo "eu"? por que achar que os caminhos que a consciência usa para lidar com esses sinais são menos verdadeiros? nossos eventuais disfarces também não somos nós?

domingo, 3 de fevereiro de 2013

fofura

não sei de onde veio, nem para onde vai, mas me perturba uma moda que mistura fofura a pequenas coisas cotidianas. ficaria só com a parte do cotidiano, sem a fofurice. mas: minha lindinha, a barra da sua saia está com um pequeno desfiado e é isso o que eu mais amo em você, lá, ra, ri, lá, ra e ontem eu fui ao cinema mas não tinha mais ingressos então eu fiquei chupando um picolé de coco com meus amigos e o meu amor, li, ri, ri, pra isso eu não tenho mais paciência, embora seja adepta do discurso das imperfeições.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

instalação

deus queria entender o que era uma instalação. os anjos balthioul, que é um anjo com poder de impedir a angústia e barratiel, que é um anjo de apoio, o levaram para conhecer obras de barnett newman,  marina abramovic, christo e de anish kapoor. deus, por exemplo, quis saber por que christo tinha encapado uma ilha com plástico cor de rosa e não amarelo ou outra cor e disse também que tinha entendido que instalação era um tipo de manifestação artística onde a obra interage com o espaço e o meio ambiente. deus tinha gostado muito. o anjo balthioul, com medo da angústia de deus, que nessa horas podia até machucar alguém, disse que o cor de rosa era para contrastar com a natureza, que quase não produz essa cor. já barratiel disse que muito bem!, que deus tinha entendido perfeitamente e que poucos compreendem tão rápido esse tipo de coisa. deus ficou muito satisfeito e disse que, também, não era pra menos, ele já tinha muita experiência.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

limão

tudo bem. é legal fazer dos limões uma limonada e toda essa história. mas tem hora que aproveitar tudo como uma oportunidade cansa. tem hora que, olha, deixa só o limão mesmo.

sábado, 26 de janeiro de 2013

peixe

embaixo da água tem peixes pretos, azuis, compridos, pequenos, listados, grudados nos corais, lagostas, formações rochosas, areia, conchas, ouriços, grutas e um peixe que fica mais parado do que os outros, te olhando assim,  bem dentro dos olhos. ele diz, diretamente: nada, palavra nenhuma.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

praia

acabo de ler um extenso ensaio da alan pauls sobre a praia. o ensaio é excelente, muito mais do que eu esperava, com a vantagem de que eu, neste momento, estou na praia e reconheço sensorialmente o que o texto comenta. coisas como o espírito gregário praiano, a igualdade de classes e a sensação esquisita da areia no corpo. alan pauls é um frasista barroco, obcecado por digressões num nível quase fetichista e o que seu ensaio quer, claramente, é recuperar algo de uma praia perdida na infància, que ele sempre freqüentava com o pai. e ele fica por um triz de chegar lá. mas na praia onde estou tem muitos coqueiros, muito vento e extensões vaziamente infinitas. então lembro de "coqueiro de itapuã: coqueiro; areia de itapuã: areia; morena de itapuã: morena" e sei que caymmi atravessou a angústia de atingir a coisa em si - que aliás nem devia sentir - e, sem mistério nenhum, disse e nos trouxe a coisa-praia.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

kindle

eu não sabia que, uma vez cadastrada no kindle, não é preciso mais, das vezes seguintes em que se clica o botão "compre num clique", preencher os dados do cartão de crédito. o resultado disso é que eu, após um lance inocente de curiosidade, tentando averiguar o índice de um livro atrás dos textos de um autor desconhecido, mas que eu queria conhecer, devo ter sio a única pessoa no mundo a comprar, via kindle, o livro "memorable  quotations. polish writers of the past". para que ele não se perca no limbo escorpiônico da internet, cito aqui uma passagem, de jérsy kozinski: "i am going to put myself to sleep now for a bit longer than usual. call the time eternity", que foi sua nota de suicídio. acho que foi uma boa compra. ótima.