quinta-feira, 6 de junho de 2013

nascituro

uma mulher não pode. onde fica ser mulher? onde está uma mulher? quem amou, quis, penetrou, estuprou essa mulher? ela espera um filho. ela concebe. ela dá: à luz, a buceta, a bunda. uma mulher se come. ela sabe a quê? ela é gostosa. o filho que ela espera é um menino. ela não sabe que espera um filho. está embaraçada. tem regras. não pode fazer amor nas regras; é suja. quem fez amor com ela? o filho que ela guarda na barriga a matou. ela está mortinha da silva. vai trabalhar cedinho de manhã. ele não se importa. vai matar a mulher que o carrega. ela sente enjoo e fica quieta. ninguém pode saber que ela está grávida. só o nascituro a observa de dentro do ventre e não sorri porque ainda não está vivo. ela chega em casa e esta só. olha para a geladeira e está só. pensa na solidão do seu abajur. o nascituro não a avisa que ainda não vive. agora ela está dormindo. façam silêncio porque ela dorme.

domingo, 2 de junho de 2013

mia

a mia é levemente vesga. emite miados longos para comer,  agudos para passear, graves e explosivos quando aparece em minha cama com um grilo ou uma mariposa e curtos e repetitivos quando faz manha. é educada. quando quer sair e a porta do quarto está fechada, espera que eu acorde, em posição semi- alerta, num canto estratégico do quarto, para então pedir. é curiosa e trepa na janela para ver o que acontece lá fora. se há algo interessante, instala-se no peitoril, atrás da persiana e fica, por mais de hora, observando. no frio, esfrega seu rosto em meu casaco até vir aninhar-se em meu colo, não sem antes testar com as patas o grau de fofura da minha barriga, amassando-a como se mamasse. então ronrona levemente, como um motor de barco e vai se achegando até deitar, em estado de relaxamento completo, com uma pata para fora do colo e outra sobre os olhos. nesses momentos, geralmente estou ocupada ou quero ir ao banheiro, mas não me levanto mais, para não incomodá-la. então sinto o calor que ela emite, ouço o som da sua respiração e durmo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

tolerância

tolerar não é aceitar, é resistir e durar. por exemplo, para medir a capacidade de uma carga, é preciso saber o grau de tolerância do material a ser transportado. ou melhor, para aceitar é preciso durar com a coisa dentro de si e ver quanto somos capazes, por um longo tempo, de resistir a ela. só assim a aceitação valerá e será tolerância. antes disso é fingimento.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

írisz

írisz fala húngaro, gosta de orquídeas e de doce de papoula. veio para o brasil em mil novecentos e cinquenta e sete, deixando sua mãe doente em budapeste e seu namorado imre, militante revolucionário. ela não sabe se ele está vivo. ela veio para são paulo a partir de um convênio estabelecido entre o jardim botânico de são paulo e o de budapeste, para pesquisar orquídeas brasileiras, muito mais prolíficas e exuberantes do que as de lá. não consegue aprender direito o português, embora tenha muita facilidade com línguas e identificou semelhanças espantosas e tristes entre o húngaro, as orquídeas e o doce de papoula: todos são aglutinantes, ou melhor, funcionam por atração e amálgama. ninguém entende isso muito bem, mas ela sim e isso basta. por enquanto, írisz não existe, mas existe demais.

terça-feira, 21 de maio de 2013

ovo

na porta do prédio da antiga rua correa dos santos, por volta de mil novecentos e setenta e dois, então com dez anos, li as primeiras frases de demian, de herman hesse, num livro provavelmente emprestado de minhas irmãs bem mais velhas: o pássaro quebra a casca; o ovo é o mundo; quem quiser nascer tem de quebrar o mundo. lembro de estacar muda, por alguns minutos. era uma revelação. quantas cascas quebrei, quantos mundos, quantas vezes parei muda nas calçadas e só hoje, quarenta anos mais tarde, sei que ainda estou dentro do ovo.

sábado, 18 de maio de 2013

azul

esqueço o sonho que não tive. também lembro dele. era azul o lugar e um homem segurava uma frase longa, se enrolando nas palavras, mais especialmente nas conjunções: contanto, apesar, embora. acho que era hamburgo, na fronteira com a dinamarca. isso, isso é a memória. ou melhor, o esquecimento, que, na verdade, é o lugar azul da memória, lá onde ela se transforma em mar e se indistingue do céu. o esquecimento é a polpa azul da memória, lá onde as palavras se enroscam e não sabem o que querem dizer. às vezes acho que esquecer é mais, muito mais vivo do que lembrar. por isso, te esqueci, sim, o que me deixa cada vez mais próxima de você.