terça-feira, 29 de outubro de 2013
catástrofe
georges didi-huberman, em sua análise sobre algumas fotos tiradas, em situação de grande risco, em auschwitz, diz que não devemos nos satisfazer com a noção de que a catástrofe foi -e é - inimaginável. precisamos imaginá-la, torná-la imaginável. a ideia do irrepresentável pode também funcionar como um escudo para o esquecimento. da mesma forma, não penso que depois de auscwitz não é mais possível escrever poemas. ao contrário, acho que, depois daquilo, só é possível escrever poemas.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
furo
escrever; gravar; cravar; grafar; crivo; grifo; cravo; write; schreben; skrive; shkruaj; skrifa. o barulho do prego furando a pedra, cr, gr, wr, schr. do prego à pena à caneta à tecla, furando.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
substância
homousios ou homouisios, que significam, respectivamente, da mesma substância ou de substância semelhante, foi a causa da grande controvérsia que ocupou o concílio de nicéia no ano trezentos e alguma coisa. uns achavam que jesus era da mesma substância de deus e outros de substância semelhante. ao final, decidiram que ambos partilhavam da mesma substância. os discordantes foram mortos. o pomo da discórdia era a letra i. um cardeal faltou ao concílio, alegando doença, dois se abstiveram e de eusébio de cesaréia, que tinha proposto resolver a disputa apenas inserindo a letra i, não se sabe o paradeiro.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
amos
fui ver ana arabia, de amos gitai e saí do cinema sonhando em escrever, como só ele consegue fazer, uma história em que nada pudesse ser interpretado, em que todas as palavras dissessem só o que querem dizer. assim, por exemplo: ana descasca batatas. coloca as cascas numa bacia vazia. depois, lava as batatas limpas e as põe para cozinhar. enquanto espera, separa as roupas que serão lavadas: uma saia de moça, um macacão de bebê, duas camisetas de times de futebol e um pano de prato. olha para o céu, parece que vai chover. é melhor não pendurar as roupas no varal. joana aparece e conta um sonho assustador. ana dá de ombros. é só um sonho.
sábado, 19 de outubro de 2013
definição
ele deu a melhor definição que já ouvi sobre nós dois: ele é chato, mas bonzinho e eu sou boazinha, mas chata.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
mandy
differentiate. a mandy dizia que só falando essa palavra é que ela percebia que eu não era americana. de resto, não dava para perceber meu sotaque. nunca entendi por que ela ouvia um sotaque brasileiro nessa palavra. até hoje fico repetindo: dif-fe-ren-ti-ate. acho que é no ren, ou ao menos isso ela dizia. já faz trinta e seis anos que ela disse isso. outro dia procurei saber dela pelo google. uma noticiazinha num jornal interiorano lamentava a morte de mandy malkovich, irmã do grande ator john malkovich, professora de uma escola infantil no sul de illinois. quando fui embora, ela, minha única amiga americana, no meio de um monte de brucutus truculentos e racistas, me deu uma camiseta de beisebol. nem lembro direito do seu rosto, meu sotaque piorou, não sei falar differentiate, já nem gosto mais tanto do john, mas como é triste a mandy não estar mais por aqui.
domingo, 13 de outubro de 2013
vó
minha vó, czarna, trazia, todas as sextas-feiras, saquinhos de papel cheios de chocolate para cada uma de nós três. na embalagem ela escrevia, a lápis: stelinhu, janynhu, noeminhu. o chocolate tinha um formato todo desengonçado. eu dizia: vó, me dá cocô. ela ria. tinha vergonha de sentar porque descobririam que ela tinha bunda. tomava banho de anágua, porque tinha vergonha do próprio corpo. fazia um furo no lençol para a hora do sexo. coletava roupas, andando pelas lojas do bom retiro, que depois vendia numa feira do brás, para onde ela só ia de ônibus. esse dinheiro ela doava para os judeus pobres e doentes. o dinheiro que ela recebia da alemanha, guardava numa caixa de sapatos, embaixo do armário. corre uma lenda que o seu marido, com quem ela se casou depois dos setenta anos, teria se apropriado da famosa caixa. uma vez, em santos, depois de se engasgar com um osso de galinha e em desespero para ir ao hospital, chamou um táxi. o marido disse: de táxi, não. é muito caro. e foram de ônibus com o osso entalado.
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