sábado, 2 de novembro de 2013

sexta

a teresa me disse que faz quatro anos na sexta agora, mas o moacyr disse que sexta, para ela, quer dizer tudo o que é futuro. gostei. na sexta agora releio o ulisses, anotando os comentarios, compro uma daquelas geladeiras que têm água na porta, visito a veronika duas vezes por semana, proponho um plano infalível de desmilitarização de são paulo, como gnocchi de ossobuco e brinco de stop com a leda e o david.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

catástrofe

georges didi-huberman, em sua análise sobre algumas fotos tiradas, em situação de grande risco, em auschwitz, diz que não devemos nos satisfazer com a noção de que a catástrofe foi -e é - inimaginável. precisamos imaginá-la, torná-la imaginável. a ideia do irrepresentável pode também funcionar como um escudo para o esquecimento. da mesma forma, não penso que depois de auscwitz não é mais possível escrever poemas. ao contrário, acho que, depois daquilo, só é possível escrever poemas.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

furo

escrever; gravar; cravar; grafar; crivo; grifo; cravo; write; schreben; skrive; shkruaj; skrifa. o barulho do prego furando a pedra, cr, gr, wr, schr. do prego à pena à caneta à tecla, furando.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

substância

homousios ou homouisios, que significam, respectivamente, da mesma substância ou de substância semelhante, foi a causa da grande controvérsia que ocupou o concílio de nicéia no ano trezentos e alguma coisa. uns achavam que jesus era da mesma substância de deus e outros de substância semelhante. ao final, decidiram que ambos partilhavam da mesma substância. os discordantes foram mortos. o pomo da discórdia era a letra i. um cardeal faltou ao concílio, alegando doença, dois se abstiveram e de eusébio de cesaréia, que tinha proposto resolver a disputa apenas inserindo a letra i, não se sabe o paradeiro.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

amos

fui ver ana arabia, de amos gitai e saí do cinema sonhando em escrever, como só ele consegue fazer, uma história em que nada pudesse ser interpretado, em que todas as palavras dissessem só o que querem dizer. assim, por exemplo: ana descasca batatas. coloca as cascas numa bacia vazia. depois, lava as batatas limpas e as põe para cozinhar. enquanto espera, separa as roupas que serão lavadas: uma saia de moça, um macacão de bebê, duas camisetas de times de futebol e um pano de prato. olha para o céu, parece que vai chover. é melhor não pendurar as roupas no varal. joana aparece e conta um sonho assustador. ana dá de ombros. é só um sonho.

sábado, 19 de outubro de 2013

definição

ele deu a melhor definição que já ouvi sobre nós dois: ele é chato, mas bonzinho e eu sou boazinha, mas chata.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

mandy

differentiate. a mandy dizia que só falando essa palavra é que ela percebia que eu não era americana. de resto, não dava para perceber meu sotaque. nunca entendi por que ela ouvia um sotaque brasileiro nessa palavra. até hoje fico repetindo: dif-fe-ren-ti-ate. acho que é no ren, ou ao menos isso ela dizia. já faz trinta e seis anos que ela disse isso. outro dia procurei saber dela pelo google. uma noticiazinha num jornal interiorano lamentava a morte de mandy malkovich, irmã do grande ator john malkovich, professora de uma escola infantil no sul de illinois. quando fui embora, ela, minha única amiga americana, no meio de um monte de brucutus truculentos e racistas, me deu uma camiseta de beisebol. nem lembro direito do seu rosto, meu sotaque piorou, não sei falar differentiate, já nem gosto mais tanto do john, mas como é triste a mandy não estar mais por aqui.