quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

madame

debaixo da polidez impecável do parisiense mora um ogro terrível. bonjour madame, desolee madame, silvouplaites madame, je vous en prie madame,  pardon madame. mas trisque um dedinho do plano pré-estabelecido das trocas fáticas e o ogro aparece: ficou louca, madame? pode esperar um pouco, madame? já não ouviu o que eu disse, não entendeu, madame? quer falar francês, então fale direito, madame.
madame não gosta que ninguém mexa com ela. madame fica brava.

sábado, 28 de dezembro de 2013

negócio

sabe quando você se espreme, comprime a barriga e se afina ao máximo para passar por um lugar bem apertado? então. nessas horas você raspa nos lugares ou pessoas que ocupam o espaço por onde você precisa passar. você é obrigado a adotar uma postura, uma largura, uma posição no espaço a que não está habituado. você não está nem aqui nem lá, mas num espaço intermediário, mais difícil, complicado, mas com algo de desafiador, divertido, delicado. então. é isso aí o negócio. bom dois mil e quatorze para todos.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

círculo

o menino jesus cristinho perguntou para a mãe: mãe, quem são esses homens andando em círculo com um biscoito redondo na mão, vestidos com roupas douradas e chapéus grandes, cantando cânticos numa língua incompreensível? maria respondeu: não vejo nada, filho. é mais uma daquelas suas brincadeiras. o menino ficou quieto e continuou brincando com a bola de palha e pano que josé fizera para ele.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

cocô

voltando das idas ao centro da cidade, onde ia resolver negócios na rua direita, ele trazia insetos e um cocô de plástico. quando eu chegava da escola, ele me pedia para sentar no sofá, onde estava aquele cocô ou uma barata falsa. ele se orgulhava de me fazer rir ou de me assustar. depois íamos almoçar e, antes de voltar ao trabalho, ele dormia por uns vinte minutos naquele mesmo sofá. ele de um lado e minha mãe do outro. eu assistia televisão.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

amizade

por outro lado, esse "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", é bem careta. cativar é tornar cativo, aprisionar. é a definição clássica, grega mesmo, de paixão - uma doença que aprisiona o sujeito. daí que cativar não tem nada a ver com amizade, que é, por natureza, livre. assim sendo, sugiro: "tu te tornas temporariamente irresponsável por aquilo que libertas". isso sim é amizade.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

exemplo

se fizer bom tempo amanhã eu vou. mas se, por exemplo, chover, não vou. esse "por exemplo" é o que faz a poesia. é a melhor definição de poesia, inclusive porque não é uma definição. "por exemplo", nessa frase, é minha ambição de escrita. mas, enquanto não sou capaz de um "por exemplo" como esse, vou escrevendo outras coisas.

sábado, 7 de dezembro de 2013

prêmio

há pouco me lembrei de ter escrito um ensaio sobre o livro "formas do nada", de paulo henriques brito, debaixo de uma árvore, no meio de um matagal abandonado, na cidade de morro da garça, onde guimarães rosa ambientou o conto "recado do morro". considero "formas do nada" o melhor livro de poesia escrito no brasil nos últimos anos. foi um acaso eu ter escrito o ensaio nesse lugar. mas agora, na lembrança, vindo acidentalmente, soou como mais um dos recados alterados do conto de rosa. todo recado é uma versão. na minha versão, paulo henriques ganhou todos os prêmios do ano.