terça-feira, 21 de janeiro de 2014
tambor
a vivian me perguntou o que eu levaria para uma ilha deserta. pensei imediatamente em um livro, é claro. ela me disse, simples: eu levaria um tambor. estou há dez dias pensando na sabedoria desta escolha. um tambor: se shakespeare tocasse tambor, se dostoievski tocasse tambor, se descartes tocasse tambor. por que eu não disse: um tambor?
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
si
essa história de "seja você mesmo", "seja único", "seja diferente" já deu o que tinha que dar. como conciliar o imperativo "seja" com o adjetivo "único"? se você obedece ao apelo, já está se submetendo. quer ser único? diferente? você mesmo? o melhor a fazer é começar desobedecendo. e, para continuar, o "si mesmo" está longe, muito longe do "eu". ele está na esquina, no banco ao lado, do outro lado da cidade e do país. está vendo aquela pessoa ali, do outro lado da rua, que você não conhece? preste atenção. é lá que está o "si mesmo".
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
coração
embora o estômago seja mais ou menos o centro do corpo, é o coração que está ao sul do cérebro e ao norte dos órgãos digestivos. é ele que, entre o escritório central e deliberativo e a esteira de montagem e descarte, faz as vezes de veículo, meio, suporte, ponte, rua, passagem. não é à toa que a tradição poética e cultural assentou nele o símbolo do sentimento, uma espécie de ponto central entre o pensamento e o cocô.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
mão
"tu me manque", em francês, é o equivalente a "tenho saudades de você". "mancar" vem de faltar uma mão, ser maneta, daí a ideia de carência, de algo que não está lá. essa inversão gramatical (tu como sujeito da frase, no lugar de eu) faz com que o outro seja o protagonista da falta que provoca no eu. como se o outro fosse uma mão ausente. já no português, a falta é interna, mais lírica e subjetiva. como se o outro não fizesse tanta diferença. a saudade, e não ele, é o que machuca.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
guerra
depois de ter sua casa de campo invadida pelos soviéticos, que a ocuparam completamente, transformando-a num galpão para conserto de armas danificadas e depois de ser continuamente acusado de "burguês", pois possuía "objetos fascistas" como candelabros, vasos, talheres de prata e porcelana, além de ser acusado de pensar e agir de forma burguesa e individualista, sandor marai se viu finalmente livre. os alemães saíram de budapeste, perderam a guerra e os soviéticos desocuparam sua casa. voltando à cidade, encontrou o lugar onde já escrevera cerca de sessenta livros, onde vivera os últimos quinze anos de sua vida, totalmente arrasado. não sobrara nada. em meio aos escombros de sua casa, destruída pelos nazistas, vasculhada e saqueada pelos soviéticos, ele encontrou, intacto, um livro isolado numa prateleira: "como criar um cão numa casa burguesa".
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
madame
debaixo da polidez impecável do parisiense mora um ogro terrível. bonjour madame, desolee madame, silvouplaites madame, je vous en prie madame, pardon madame. mas trisque um dedinho do plano pré-estabelecido das trocas fáticas e o ogro aparece: ficou louca, madame? pode esperar um pouco, madame? já não ouviu o que eu disse, não entendeu, madame? quer falar francês, então fale direito, madame.
madame não gosta que ninguém mexa com ela. madame fica brava.
madame não gosta que ninguém mexa com ela. madame fica brava.
sábado, 28 de dezembro de 2013
negócio
sabe quando você se espreme, comprime a barriga e se afina ao máximo para passar por um lugar bem apertado? então. nessas horas você raspa nos lugares ou pessoas que ocupam o espaço por onde você precisa passar. você é obrigado a adotar uma postura, uma largura, uma posição no espaço a que não está habituado. você não está nem aqui nem lá, mas num espaço intermediário, mais difícil, complicado, mas com algo de desafiador, divertido, delicado. então. é isso aí o negócio. bom dois mil e quatorze para todos.
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