sábado, 15 de março de 2014
linguiça
apesar de não sermos religiosos, em casa ainda havia certo tabu em comprar carne de porco. acontece que ele adorava presunto, pernil, linguiça e mortadela, o que nos obrigava a procurar bares e lanchonetes para comê-los. no restaurante, não. seria ostensivo demais. então encontrávamos padarias com bons sanduíches de mortadela, a "saladinha" da rua três rios para o de pernil e um bar da rua são bento para o de linguiça. o porco foi nossa reserva de amizade secreta e segura. hoje, como carne de porco com cerimônia. brindo intimamente a ele, que apreciaria tanto essa linguiça e, retroativamente, cultivo nosso segredo: pai, essa é de bragança paulista.
quinta-feira, 13 de março de 2014
erros
sem pensar, ser acometido de, virar cometa, cometer doze pecados, poucas horas para acabar, meu pai e o acabamento das saias, saia já daqui, daqui não saio, daqui ninguém me tira, era a piada que me contavam quando eu era pequena, desligar o motor metalinguístico, frustrar os leitores, perder amigos no facebook, perder os campeonatos verbais, falar a vírgula errada, falar a vírgulas errados, sabotar, sabão em pó.
domingo, 9 de março de 2014
irmã
entramos juntas numa loja de cds em jerusalem. depois de pouco tempo, eu chorava de um lado, ouvindo um cd do mati caspi, que me lembrava a adolescência, e ela do outro, ouvindo um vinil do jethro tull. eu, feliz: lembrei de tanta coisa. ela, triste: onde está aquela que eu fui? hoje, com sessenta anos, acho que ela reencontrou.
sexta-feira, 7 de março de 2014
ela
uma mulher arruma as escovas de dentes: a vermelha, no de geleia; a verde, no de requeijão. uma pasta para os dois. duas saboneteiras: vermelha e verde também. os nomes nas camisetas. estão dormindo. ajeita o cobertor, um pouco mais para cima. prepara um café e bebe. as sirenes pararam. ninguém diz que está tudo bem. está, ela sabe. sabe muito, ela.
terça-feira, 4 de março de 2014
conclusão
o melhor remédio para a tristeza: não tire conclusões. para a raiva: não tire conclusões. para manter a alegria: não tire conclusões. para sentir alegria: não tire conclusões. para o progresso da ciência: não tire conclusões. para a paz: não etc.
sábado, 1 de março de 2014
alecrim
se um dia os deuses quiserem me fazer feliz, permitirão que eu consiga escrever algo assim:
alecrim, alecrim dourado, que nasceu no campo e não foi semeado.
alecrim, alecrim dourado, que nasceu no campo e não foi semeado.
foi o meu amor, que me disse assim
que a flor do campo é o alecrim.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
bom retiro
o chapéu era amassado e enfiado na cabeça. o terno, umas três vezes o seu tamanho. o rosto amarfanhado, parecendo bravo, mas não era: só o tempo mesmo. parava na nossa frente e abria o paletó: nos infinitos bolsos, coleções de agulhas, alfinetes, alguns canivetes, lâminas de gilete, canetas, lápis, borrachas, apontadores, clipes, fitas durex, linhas, garrafinhas de whisky, enfim, tudo o que alguém precisa para ser feliz. não falava nada e dormia num muquifo. era judeu, mas o bom retiro estava mais nele e ele no bairro do que nós. hoje não existem mais as pessoas que não falam nada e nem o bom retiro profundo, que, como os vilarejos poloneses, desapareceu em nós.
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