domingo, 13 de julho de 2014

piedade

nossa senhora das gentes ordinárias, tende piedade dos que duvidam, se contradizem, não conseguem se decidir e gaguejam. mas mais piedade ainda, senhora, daqueles que têm certezas, porque sua solidão é tão terrivelmente maior.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

vida

a poesia fica adiante ou antes da vida, mas não coincide com ela. e é nessas horas - quando eu penso que elas são a mesma - que a vida vem e te pega e te lança seguidamente morro abaixo e acima, te torce que nem laranja madura e te explica, às vezes alto e outras baixinho: eu sou só isso. ou tudo isso. eu sou sete a um.

domingo, 6 de julho de 2014

preconceito

o ímpeto preconceituoso contra os carrões bmw falou alto ontem, quando fui fechada por um deles, que continuou patinando pela rua estreita, sem definir a pista, como se fosse dono do lugar. passei do lado, doida para ver a cara do motorista e, justificada em meu preconceito pela sua cara já intuída de coxinha cem por cento, xingá-lo. mas era a gal costa. era a gal costa. era a gal costa.

terça-feira, 1 de julho de 2014

inferno

não é que o inferno sejam exatamente os outros. pior do que isso é saber, implicitamente, que eu é que sou o outro do inferno deles. o inferno são os outros é quase como dizer: o inferno sou eu.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

prejuízo

quanto eu devo por ter dito? e por não ter dito? vão cobrar? preciso pagar? qual a extensão do prejuízo? corresponde à culpa? se corresponder, está pago? quanto custa falar? e não falar? avaliam a coerência? avalizam? eu mesma endosso? a dúvida compromete? o medo ajuda? pode dar desconto? o erro aumentou o risco? a covardia protege? a coragem compensa? o custo-benefício vale?

sábado, 21 de junho de 2014

samba

a samba é minha cachorra. o gênero do artigo está errado, porque, na verdade, está certo. a samba lelê, a samba que agoniza mas não morre, eu sou a samba, desde que a samba é samba é assim, e quem suportar uma paixão, saberá que a samba então nasce no coração, a samba pede passagem, não deixe a samba morrer, esta samba é só por que, rio eu gosto de você, tem muita samba, muito choro e rock'n'roll, a samba da minha terra deixa a gente mole, a voz da minha samba ninguém vai calar, os originais da samba, vai minha samba, a samba puro de amor.

sábado, 14 de junho de 2014

foco narrativo

duas demonstrações recentes da ideia de que o foco narrativo significa a distância maior ou menor que o narrador assume diante do personagem e que, em função disso, todo personagem é complexo, quando visto de perto: um) uma manicure, com quem conversei, é jogadora de futebol. jogava em goiás, mas precisou vir a são paulo para trabalhar. velha demais para ser aceita em algum clube, joga no time masculino do marido. não é que eu goste de futebol, eu amo. é uma paixão, uma fascinação. enquanto assistíamos ao jogo camarões e méxico, ela me ensinou todos os impedimentos. dois) o vendedor de queijos do sacolão é croata, casado com uma japonesa, que conheceu num navio de cruzeiro. ela trabalhava na cozinha e ele na área de cargas. se apaixonaram e, como ela é filha de brasileiros, vieram para cá e trabalham com laticínios. ele tem, na parede da banca do sacolão, um prato de cerâmica com o mapa da croácia e sua cidadezinha em relevo. a bandeira croata escondida no balcão está dobrada ao lado da brasileira, propriedade de sua mulher japonesa.