terça-feira, 5 de agosto de 2014

resto

ok. se não há mais utopias (e não as há) e o futuro murchou, se o cinismo não é a opção inevitável,  e o hedonismo tampouco (sem nem mesmo a utopia do presente e do prazer) o que resta além de vozes quebradas autoproclamadoras de si mesmas ou do silêncio pasmo e imóvel? o que resta é isso mesmo: o resto. restar, o mesmo que repousar, manter-se, ficar. ficar no resto, um passo atrás ou à frente. só um passo e não uma escalada ou um abismo. restemos. como partes e como repouso. um pouco no passado e um pouco no futuro, outro tanto no presente. não haverá paz, nem justiça ou democracia total. nem um gregarismo harmônico, beirando o totalitário. só o resto. tolerância, escuta, demora e alguma ousadia para pequenas grandes coisas e grandes coisas pequenas.

sábado, 2 de agosto de 2014

o

quero outra vez o estupor de descobrir - como aconteceu quando eu tinha uns oito anos - que todos os meses do ano terminam com a letra "o", menos abril.

domingo, 27 de julho de 2014

dose

se pharmakon é veneno e é remédio, o que determina sua eficácia é a dose, que, por sua vez, significa dom, doação e dádiva. saber dosar é saber doar.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

tempo

time é tempo e weather é tempo também. por um lado, como é bonito perguntarmos "como está o tempo?"e, com isso, qualificarmos a passagem dos dias. "o tempo está bonito", "o tempo está feio", "o tempo está chuvoso", como se o próprio tempo se vestisse para passar por nós e em nós. mas, por outro, que falta de poder reconhecer a chuva, o vento e o sol como coisas independentes e, com isso, acreditar, por alguns minutos, que somos marinheiros ou desbravadores guiados pelos fenômenos naturais.





domingo, 20 de julho de 2014

paz

como suportar ser e não ser? é isso o real. e não alternadamente, mas simultaneamente. o mesmo pode ser o outro e o outro pode ser o mesmo ao mesmo tempo. enquanto não nos preparamos para contermos e sermos contidos por isso, não haverá paz. nem em nós nem para nós.

domingo, 13 de julho de 2014

piedade

nossa senhora das gentes ordinárias, tende piedade dos que duvidam, se contradizem, não conseguem se decidir e gaguejam. mas mais piedade ainda, senhora, daqueles que têm certezas, porque sua solidão é tão terrivelmente maior.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

vida

a poesia fica adiante ou antes da vida, mas não coincide com ela. e é nessas horas - quando eu penso que elas são a mesma - que a vida vem e te pega e te lança seguidamente morro abaixo e acima, te torce que nem laranja madura e te explica, às vezes alto e outras baixinho: eu sou só isso. ou tudo isso. eu sou sete a um.