domingo, 12 de outubro de 2014
mira schendel
alguns artistas, como mira schendel, chegam a um tal grau de penetração e integração com a linguagem artística, que atingem um lugar em que tudo o que fizerem, pensarem, produzirem, é arte. se mira desenhasse um traço, seria arte. se escrevesse "e", seria arte. e, por outro lado, também não precisam mais dizer "isso é arte", "isso não é arte", porque ultrapassaram o campo do classificável. chega esse momento em que não é preciso mais ativar um repertório simbólico para se produzir linguagem, porque, para alguns, tudo é simbólico e nada mais precisa ser simbólico. comer é linguagem e pintar é vida.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
comparação
as comparações inesperadas que alberto tassinari vem fazendo há algum tempo no facebook, embora sempre dentro da mesma linguagem - a arte -, para mim são como voltar ao mundo da analogia, que há muito vem sendo substituído pelo da ironia, como diz octavio paz. são aproximações de um tempo em que parecia possível juntar natureza e cultura, céu e terra, humano e animal, corpo e alma, pessoas com pessoas, iguais com diferentes, passado com presente. estas comparações, momentaneamente, me salvam de um mundo em que tudo se separa, sem metáforas possíveis.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
machadinha
quem será o dono da machadinha, que se desespera por alguém ter posto a mão nela, sabendo que ela era dele? e por que será que ele declara tamanho amor a ela, dizendo que ele é dela, se ela for mesmo dele? e por que será que ela pula no meio da rua?
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
futuro
sonho que estou na estação errada do trem. ou no trem errado. ou no horário errado. ou com as pessoas erradas. sonho desajustes assustadores. a memória: um trem cuja passageira se atrasa ou se adianta. o tempo da memória é implacável: nunca sou simultânea a ele. para o trem-memória, o presente já é passado. para a passageira desmemoriada, o presente é quase um futuro.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
água
o poema que eu mais gostaria de ter escrito:
row row row my boat
gently down the stream
merrily, merrily, merrily, merrily,
life is but a dream
row, boat e stream são palavras marinhas, hídricas, são a própria água
gently é a melhor forma de estar na vida
merrily é mais feliz que happy, que glad, que joyful
a construção "is but a" é a que melhor designa algo incomparável para a qual, infelizmente, não há tradução no português
três vezes row dá a sensação de remar como a vida, como constância, imanência e ondulação
merrily quatro vezes é a própria felicidade
ainda há tanto a dizer e, ao mesmo tempo, nada a ser dito.
row row row my boat
gently down the stream
merrily, merrily, merrily, merrily,
life is but a dream
row, boat e stream são palavras marinhas, hídricas, são a própria água
gently é a melhor forma de estar na vida
merrily é mais feliz que happy, que glad, que joyful
a construção "is but a" é a que melhor designa algo incomparável para a qual, infelizmente, não há tradução no português
três vezes row dá a sensação de remar como a vida, como constância, imanência e ondulação
merrily quatro vezes é a própria felicidade
ainda há tanto a dizer e, ao mesmo tempo, nada a ser dito.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
nós
ocês falam muito, disse o homem. e vocês, não falam? não. nós prefere ficar quieto. nós não têm muito o que dizer. então como vocês fazem pra reclamar, pra exigir? nós exige assim mesmo. quieto. e vocês assim, quietos, conseguem o que vocês querem? às veiz. outras veiz não. mas não seria melhor falar? é, pode ser. mas nós prefere ficar quieto mesmo.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
dedo
"fiction"vem de "finger", dedo, porque era com o dedo que se dava forma às invenções produzidas. dou um dedo, sem nem pesquisar, que é daí também que vem o nosso "fingir", tradução corrompida e criativa de "finger" e de "ficção" ao mesmo tempo. ou seja, e para todos os efeitos, ficção é fingimento. o resto é só e monotonamente a verdade.
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