sábado, 14 de fevereiro de 2015
carnaval
oração pagã da carne, desprovida de culpa: que eduardo cunha, à luz da madrugada, e sozinho, sinta um comichão a acossá-lo, como que vindo de dentro e de trás, arrostando-se para a frente. que ele, com as calças do pijama arreadas, se dirija com fremência e ignorância ao vaso, onde, pasmo diante da anodinice de seu pintinho, forceje-o repetidas vezes para diante, premido por um como que frêmito, mas que nada, nada, a não ser uma baga viscosa, borbote do mofino badalhoco.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
quinhentos
anteontem fez dezenove anos que ele morreu, mas lá pelos anos setenta, a amiga chata, rica e metida disse uma vez: "hoje em dia quem não tem quinhentos mil dólares?". desde então, toda vez que um dos mendigos e fiscais que frequentavam a "oficina" (como ele chamava sua confecção de roupas femininas) vinha pedir dinheiro (fosse esmola ou propina), ele dava, mas não sem antes dizer: "hoje em dia quem não tem quinhentos mil dólares?"
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
benedito
tudo bem. mensalão, petrolão, água, luz, feliciano. mas como não amar um país, ou melhor, uma língua, que tem, entre muitas, palavras como sirigaita, comezinho, noves- fora, será o benedito, demais da conta e, sobretudo, pairando excelsa e inamovível no panteão das alegrias, prontinho da silva?
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
ferida
para quem, como eu, acreditava e amava o pt, o que está acontecendo agora é uma espécie de ferida narcísica, mais do que uma frustração política. é a dor de ver um sonho pessoal se desfazer. daí, imagino, a indignação humilhada, a impotência, o vazio. para quem, como vários amigos e familiares, nunca acreditou no pt, parece haver certa satisfação intimamente vingadora, uma superioridade discreta de quem diz "não falei, sua sonhadora?", "o mundo não é simples como você sempre quer pensar", "eu sim já sei como tudo é hipócrita e não tem como ser diferente". ou seja, nem os que acreditavam e nem os que não acreditavam estão fazendo alguma coisa com seu sonho desfeito ou seu pesadelo confirmado. tenho pensado que o necessário é agir com e na derrota do sonho, encarar a importância de viver politicamente sem um sonho, que talvez seja a melhor forma de ação, se não política, ao menos social. ainda amargo o narcisismo supurado, mas algo acena, no fundo da ferida, para uma realidade mais gregária.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
o
o excesso, a falta, a intensidade, o abridor de lata que não serve para canhotos, a militância, o sexo, a burrice, a ginástica, a aula que ficou aquém, os olhares, o truque, a salada com gorgonzola (ele falava gongorzola), o palito de dentes, o peso (não esse, o outro), o café, a casca, o dinheiro, a chatice, a teimosia, o olha isso, olha, olha, por favor, olha vai, o mais uma coisa, e mais uma coisa, a quantidade, o caminhãozinho, o elefante que eu não sei montar, a bicicleta, a noite que virá de qualquer jeito e os preços do carrefour, alguns centavos mais barato, meu deus, o cabide que lá custa onze reais, mas foi feito na china, e eu e o escravo, o cabide, o carrefour, o carrefour, meu deus, o carrefour.
domingo, 25 de janeiro de 2015
ingenuidade
me emociono, sem saber muito bem por quê, quando leio, num texto de lévinas, a frase: "não a ingenuidade, mas a inocência". vou atrás da origem de ingenuidade, que pensava ter a ver com "ingenuity", do inglês, que significa " engenho". nada a ver. ingenuidade vem de "genus", comum, e ingênuo é o homem nobre, incomum, que nasce livre porque é genuinamente melhor. puta merda. então foi por isso que me emocionei com o lévinas. o ingênuo é bom porque se crê congenitamente melhor. já "inocente" é, só e simplesmente, sem maldade.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
eu
o terceiro volume do romance "minha luta", de karl ove knausgard, começa se perguntando quem é o "eu" das fotos que guardamos da nossa infância. por que aquele "eu" é "eu"? se nos mostrassem a foto de outra criança, dizendo que aquele é "eu", também não poderia ser? o autor chega até a sugerir que tivéssemos, cada um, nomes diferentes para idades diferentes, porque, afinal de contas, nada, além do nome, nos identifica naquela foto. ser "eu", nessas condições, seria somente uma abstração. mas o que identifica o "eu" de agora? provavelmente, só o fato de que ele coincide com a enunciação atual da palavra "eu". esse "eu", assim como aquele, tampouco existe e não passa de dois sons, "e" e "u". por outro lado, karl ove, a covinha no queixo, a verruga na orelha, o olhar distraído, a coca cola no gargalo, um cílio torto, a blusinha de cambraia, a sola do sapato suja de cocô de cachorro, isso tudo é de quem, hein, karl ove? responde agora, quero ver!
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