terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
chá
a vida, disse o rabino estertorando, é uma xícara de chá. "a vida é uma xícara de chá, a vida é uma xícara de chá, a vida é uma xícara de chá!", repetiram todos os habitantes do vilarejo, de boca em boca, até chegar à taberna, onde um jovem, menos avisado sobre a santidade do rabino que morria, perguntou: "por que a vida é uma xícara de chá?' e todos, no sentido contrário da corrente, repetiram a pergunta: "mas por que a vida é uma xícara de chá? mas por que a vida é uma xícara de chá? mas por que a vida é uma xícara de chá?" até que a pergunta finalmente chegou ao rabino agonizante, feita por um discípulo cauteloso, que a segredou temerário: "rabino, por que a vida é uma xícara de chá?' "nu, então a vida não é uma xícara de chá!". e morreu.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
carnaval
oração pagã da carne, desprovida de culpa: que eduardo cunha, à luz da madrugada, e sozinho, sinta um comichão a acossá-lo, como que vindo de dentro e de trás, arrostando-se para a frente. que ele, com as calças do pijama arreadas, se dirija com fremência e ignorância ao vaso, onde, pasmo diante da anodinice de seu pintinho, forceje-o repetidas vezes para diante, premido por um como que frêmito, mas que nada, nada, a não ser uma baga viscosa, borbote do mofino badalhoco.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
quinhentos
anteontem fez dezenove anos que ele morreu, mas lá pelos anos setenta, a amiga chata, rica e metida disse uma vez: "hoje em dia quem não tem quinhentos mil dólares?". desde então, toda vez que um dos mendigos e fiscais que frequentavam a "oficina" (como ele chamava sua confecção de roupas femininas) vinha pedir dinheiro (fosse esmola ou propina), ele dava, mas não sem antes dizer: "hoje em dia quem não tem quinhentos mil dólares?"
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
benedito
tudo bem. mensalão, petrolão, água, luz, feliciano. mas como não amar um país, ou melhor, uma língua, que tem, entre muitas, palavras como sirigaita, comezinho, noves- fora, será o benedito, demais da conta e, sobretudo, pairando excelsa e inamovível no panteão das alegrias, prontinho da silva?
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
ferida
para quem, como eu, acreditava e amava o pt, o que está acontecendo agora é uma espécie de ferida narcísica, mais do que uma frustração política. é a dor de ver um sonho pessoal se desfazer. daí, imagino, a indignação humilhada, a impotência, o vazio. para quem, como vários amigos e familiares, nunca acreditou no pt, parece haver certa satisfação intimamente vingadora, uma superioridade discreta de quem diz "não falei, sua sonhadora?", "o mundo não é simples como você sempre quer pensar", "eu sim já sei como tudo é hipócrita e não tem como ser diferente". ou seja, nem os que acreditavam e nem os que não acreditavam estão fazendo alguma coisa com seu sonho desfeito ou seu pesadelo confirmado. tenho pensado que o necessário é agir com e na derrota do sonho, encarar a importância de viver politicamente sem um sonho, que talvez seja a melhor forma de ação, se não política, ao menos social. ainda amargo o narcisismo supurado, mas algo acena, no fundo da ferida, para uma realidade mais gregária.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
o
o excesso, a falta, a intensidade, o abridor de lata que não serve para canhotos, a militância, o sexo, a burrice, a ginástica, a aula que ficou aquém, os olhares, o truque, a salada com gorgonzola (ele falava gongorzola), o palito de dentes, o peso (não esse, o outro), o café, a casca, o dinheiro, a chatice, a teimosia, o olha isso, olha, olha, por favor, olha vai, o mais uma coisa, e mais uma coisa, a quantidade, o caminhãozinho, o elefante que eu não sei montar, a bicicleta, a noite que virá de qualquer jeito e os preços do carrefour, alguns centavos mais barato, meu deus, o cabide que lá custa onze reais, mas foi feito na china, e eu e o escravo, o cabide, o carrefour, o carrefour, meu deus, o carrefour.
domingo, 25 de janeiro de 2015
ingenuidade
me emociono, sem saber muito bem por quê, quando leio, num texto de lévinas, a frase: "não a ingenuidade, mas a inocência". vou atrás da origem de ingenuidade, que pensava ter a ver com "ingenuity", do inglês, que significa " engenho". nada a ver. ingenuidade vem de "genus", comum, e ingênuo é o homem nobre, incomum, que nasce livre porque é genuinamente melhor. puta merda. então foi por isso que me emocionei com o lévinas. o ingênuo é bom porque se crê congenitamente melhor. já "inocente" é, só e simplesmente, sem maldade.
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