domingo, 8 de março de 2015
fábula
então ela não amou seu filho assim que ele nasceu. estranhou aquele desconhecido. e passaram-se alguns meses e ela ainda não o amava. tinha sonhos ruins. amamentava, acompanhava os progressos e gostava quando, às vezes, ele parecia reconhecê-la. chorava por ela e ela vinha, pressurosa mas não incondicional. gostava daquela presença tão vizinha, mas não sentia um arrebatamento. um dia ele quase caiu. ela o salvou com certa ferocidade. estranhou. seria isso? segurou-o mais forte. ensaiou um abraço, como se o conhecesse de há muito e como se há muito não o visse. perguntou: está tudo bem? e, como ele não respondesse, ela mesma disse: está sim, está tudo bem.
terça-feira, 3 de março de 2015
moral
a palavra "dwell", em inglês, que eu sempre estranhei e que significa morar, é um exemplo da aplicação moral de um significado sobre seu efeito espacial e histórico. eu não estranhava à toa. "dwell" vem de desviar, levar para o caminho errado. como então, morar? de desviar, enganar, ela evoluiu para adiar, porque quem engana, adia. de adiar, surpreendente e contraditoriamente, para ficar por muito tempo, porque quem adia, vai ficando. e, finalmente, de ficar, para morar, porque quem fica, mora.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
triângulos
o pai, durante o shabat, fazia pequenos triângulos de papel e os colocava sobre o móvel, para não manchá-lo quando a cera das velas, acesas nos candelabros, derretesse. literatura é sobre isso. e não sobre dizer que o pai era cuidadoso, obsessivo ou sobre o amor que um filho sente ao lembrar desse gesto.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
nome
por que, em todos os tempos, em todas as culturas e em todos os lugares, nomeia-se? por que o nome determina tanto o ser, como sabemos nós, os nomeados? nomeia-se para que se possa chamar: "fulano! olha isso! venha aqui! cuidado! não faz assim! nós te homenageamos, fulano. eu te amo, meu fulano adorado. some daqui, seu fulano imbecil!" nomeia-se para que haja reputação e memória: "lembra do que fulano fez? miremo-nos no exemplo de fulano. fulano será nosso símbolo por gerações e gerações." nomeia-se para ninar: "dorme, meu fulaninho querido." nomeia-se para a vingança: "você pensa que eu vou esquecer, algum dia, do que você fez para fulano?" nomeia-se para que exista o tempo e a memória. mas, acima de tudo, nomeia-se para que cada um seja o outro de alguém.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
chá
a vida, disse o rabino estertorando, é uma xícara de chá. "a vida é uma xícara de chá, a vida é uma xícara de chá, a vida é uma xícara de chá!", repetiram todos os habitantes do vilarejo, de boca em boca, até chegar à taberna, onde um jovem, menos avisado sobre a santidade do rabino que morria, perguntou: "por que a vida é uma xícara de chá?' e todos, no sentido contrário da corrente, repetiram a pergunta: "mas por que a vida é uma xícara de chá? mas por que a vida é uma xícara de chá? mas por que a vida é uma xícara de chá?" até que a pergunta finalmente chegou ao rabino agonizante, feita por um discípulo cauteloso, que a segredou temerário: "rabino, por que a vida é uma xícara de chá?' "nu, então a vida não é uma xícara de chá!". e morreu.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
carnaval
oração pagã da carne, desprovida de culpa: que eduardo cunha, à luz da madrugada, e sozinho, sinta um comichão a acossá-lo, como que vindo de dentro e de trás, arrostando-se para a frente. que ele, com as calças do pijama arreadas, se dirija com fremência e ignorância ao vaso, onde, pasmo diante da anodinice de seu pintinho, forceje-o repetidas vezes para diante, premido por um como que frêmito, mas que nada, nada, a não ser uma baga viscosa, borbote do mofino badalhoco.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
quinhentos
anteontem fez dezenove anos que ele morreu, mas lá pelos anos setenta, a amiga chata, rica e metida disse uma vez: "hoje em dia quem não tem quinhentos mil dólares?". desde então, toda vez que um dos mendigos e fiscais que frequentavam a "oficina" (como ele chamava sua confecção de roupas femininas) vinha pedir dinheiro (fosse esmola ou propina), ele dava, mas não sem antes dizer: "hoje em dia quem não tem quinhentos mil dólares?"
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