quarta-feira, 8 de abril de 2015
sexo
sexo basta amor não basta porque sexo é inteiro amor é metade. não bastar não basta e bastar basta e por isso sexo apraz e amor dói. mas o prazer que basta, de tanto bastar acaba não mais bastando porque ninguém quer tanto bastante. e a dor que não basta, de tanto não bastar se desgasta e então o sexo que basta reabastece a não bastância da dor.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
namoro
ele pediu que eu namorasse com ele e eu exultei. mas era pra fazer ciúmes na márcia, a mais bonita da série. aceitei mesmo assim. achei que o tempo o faria gostar de mim. não fez. três dias depois, ele desmanchou. a márcia não ficou enciumada e o falso namoro não serviu pra nada. foi no pátio, na saída da escola, no meio de uma multidão que se acotovelava. só eu ouvi o pedido. hoje me arrependo de ter aceitado, lamento não ter servido pra fazer ciúme. mas durante nosso breve namoro, assistindo a um jerrry lewis no cinema, aproveitei, me assanhei e sentei no colo dele. era a prova do namoro. foi um escândalo. bem feito.
sexta-feira, 27 de março de 2015
ovo
não lembro direito das palavras. alguma coisa como "para nascer é preciso quebrar o ovo" ou "quebrar a casca". eu tinha uns oito anos e estava descendo as escadinhas da portaria do prédio, com o demian aberto nas mãos. então li isso. fiquei parada na calçada da correa dos santos. então era preciso quebrar a casca? como eu faria isso? eu também precisaria quebrá-la? qual era a casca, qual o ovo? entrei num transe ontológico literário. não saí ainda.
segunda-feira, 23 de março de 2015
erro
quer errar? erre. a literatura, dama fácil, aceita tudo. mas que o erro seja o sonho impossível do acerto, a troça da língua sobre os gabaritos, a necessidade urgente da regra ruir, o inconformismo das palavras assalariadas, a trilha dos viajantes exaustos ou curiosos.
segunda-feira, 16 de março de 2015
domingo, 8 de março de 2015
fábula
então ela não amou seu filho assim que ele nasceu. estranhou aquele desconhecido. e passaram-se alguns meses e ela ainda não o amava. tinha sonhos ruins. amamentava, acompanhava os progressos e gostava quando, às vezes, ele parecia reconhecê-la. chorava por ela e ela vinha, pressurosa mas não incondicional. gostava daquela presença tão vizinha, mas não sentia um arrebatamento. um dia ele quase caiu. ela o salvou com certa ferocidade. estranhou. seria isso? segurou-o mais forte. ensaiou um abraço, como se o conhecesse de há muito e como se há muito não o visse. perguntou: está tudo bem? e, como ele não respondesse, ela mesma disse: está sim, está tudo bem.
terça-feira, 3 de março de 2015
moral
a palavra "dwell", em inglês, que eu sempre estranhei e que significa morar, é um exemplo da aplicação moral de um significado sobre seu efeito espacial e histórico. eu não estranhava à toa. "dwell" vem de desviar, levar para o caminho errado. como então, morar? de desviar, enganar, ela evoluiu para adiar, porque quem engana, adia. de adiar, surpreendente e contraditoriamente, para ficar por muito tempo, porque quem adia, vai ficando. e, finalmente, de ficar, para morar, porque quem fica, mora.
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