quinta-feira, 2 de julho de 2015
urgência
é urgente. urge que seja. tudo urge, urra, vocês não ouvem o chamado das coisas urgindo? elas estão falando: vão! e nós estamos olhando, ouvindo surdos e falando calados, mas parados. perdemos a urgência do chamado para a urgência dos compromissos. é urgente, ouçam!
sábado, 20 de junho de 2015
alegria
a alegria, como quando ouvimos a voz das coisas - a planta que viceja, o bolo que cresce, o ar que rumoreja - é quando o corpo diz mais do que as palavras. as pernas querem mexer, as mãos bater, o peito avançar, os olhos procurar e as palavras, tímidas diante de tanto sentido, só sabem ahs, ihs, ohs e uhs. alegria é quando as palavras emburrecem.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
glamour
glamour e gramática têm a mesma origem: gramaris, que significa encantamento, magia. isso porque quem domina as regras do sistema possui, certamente, conhecimentos mágicos. é claro. a magia é ter total maestria sobre as regras, de forma tal que elas pareçam não existir. glamuroso é um gramático, no final das contas. nada mesmo é tão charmoso quanto saber o que é uma oração reduzida de infinitivo e não parecer que se a sabe.
terça-feira, 9 de junho de 2015
írisz.
é hoje o lançamento do meu novo livro "írisz: as orquídeas". apareça, a partir das 19, quando falo sobre o livro, na livraria da vila da rua fradique coutinho. te espero lá!
terça-feira, 2 de junho de 2015
israel
pedem que gil e caetano não toquem em israel porque o governo de lá é repressivo e segregador. sim, é. e a música é ( ou pode ser) libertária e agregadora. em israel, há milhares de pessoas assim, sedentas de espaços e tempos para se expressar. por que tocar em um lugar significa endossar o governo? por que negar a quem pode, a possibilidade de manobrar entre as margens do sim e do não? só há duas opções para cada pergunta? por que a vida virou vestibular? por que israel, e de cambulhada tanta coisa, virou um bloco uno e deixou de ser também um povo? claro que é justo e necessário que eles se apresentem também na palestina. posso ser ingênua, mas maior ingenuidade, acho, é fingir que Israel não existe.
sábado, 23 de maio de 2015
davi e silva
"ele falou baixinho: agradece os clientes por mim e cuida da mãe". "eu sei que não vou sair dessa, davi". foi isso que o silva disse para o irmão, davi, antes de morrer de uma infecção numa úlcera mal medicada, em dezembro do ano passado. e foi isso o que o davi me contou, ontem à noite, no pascuale, explicando por que tem trauma de andar de moto. era o silva que o levava para casa, todas as noites e ele não pode subir numa moto porque lembra do irmão, "que foi como um pai para mim". a mãe, cearense, agora está aqui e davi está cuidando dela. o silva, que era chef de salão, digno que só ele, e agora que só o irmão, faz falta para nós, os clientes a quem ele pediu para agradecer. agradecer o quê, silvia?
quarta-feira, 13 de maio de 2015
utopia
no início o homem criou a cidade e o campo. e na cidade os homens se organizavam e desorganizavam, e no campo os homens se espalhavam e se concentravam. e o homem viu que era bom. dia um. no dia dois, o homem criou as palavras e, com elas, os nomes. e os homens passaram a se chamar uns aos outros e as coisas se aproximaram. e o homem viu que era bom. dia dois. no dia três, o homem criou as trocas e os presentes. e os homens, nas cidades e nos campos, trocaram pimentas por burros e palavras por martelos. e o homem viu que era bom. dia três. no dia quatro, o homem criou o papel e os pequenos cantos. e os homens se recolhiam, reapareciam, escreviam e liam. e o homem viu que era bom. dia quatro. no dia cinco, o homem criou o amor e o ódio, a alegria e a tristeza. e os homens fizeram amor e filhos e brigavam e faziam festas. e o homem viu que era bom. dia cinco. no dia seis, o homem criou as viagens e os descobrimentos. e os homens foram da cidade para o campo e do campo para a cidade e descobriram os óculos e o gramofone. e o homem viu que era bom. dia seis. no dia sete, o homem criou as histórias e os brinquedos. e os homens inventaram e brincaram. e o homem viu que era bom. dia sete. no dia oito o homem não criou deus, porque tudo estava bom assim.
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