domingo, 9 de agosto de 2015

paranoia

eu era garota, tinha acabado de começar a dar aulas de português no meu primeiro emprego de verdade, quando a psicóloga da escola, mais velha e experiente, chegou para mim e disse: noemi, você é boa, mas precisaria ser mais paranoica. não explicou nada. entendi, um pouco depois, que a paranoia, supostamente, iria me salvar dos espertalhões, dos enganos e dos truques. que o que ela entendia como ingenuidade (que, para ela, era sinônimo de carência de paranoia (?)) iria me colocar, frequentemente, em maus lençóis. trinta anos mais tarde, ainda me lembro disso. calou fundo. e continuo discordando. não sou ingênua coisa nenhuma. nem tampouco paranoica. e uma coisa, fique você sabendo, psicóloga de meia tigela, não é o contrário da outra. muitas vezes, sua chata de galocha, a verdade é que é a melhor forma de mentir.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

doença

sabe aquela frase linda que você escreveu no livro que está querendo publicar? aquela assim: "nos estertores da doença que o consumia, estendido no leito, suspirou um pedido derradeiro"? então. corte.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

eurequinha

lendo o quarto volume da autobioficção de karl ove, ontem, tive uma espécie de epifania que, talvez, muitos outros já tenham tido. sempre fico me perguntando por que gosto tanto de lê-lo. é um mistério. ontem entendi: karl ove escreve bem porque não escreve bem. seu estilo está em parecer que não tem estilo nenhum e que ele escreve apenas com sinceridade, total transparência. como se contasse, tim tim por tim tim, toda, mas toda sua vida mesmo. isso o humaniza profundamente, o torna comum, cheio de erros e mesmo assim capaz de escrever um livro de muito sucesso e, ao mesmo tempo, também aproxima tremendamente o leitor, que vê suas mundanidades elevadas ao nível de boa literatura.

domingo, 26 de julho de 2015

solidão

solução para a solidão: fique só. sabe por quê? porque a solidão não tem solução e nem é bom que tenha. e também porque só a solidão faz entender a alegria da solidão como o orto da companhia.

domingo, 19 de julho de 2015

sorvete

uma liberdade trágica, trôpega, quase ruim de tão boa, pode estar em escolher, no supermercado, o sorvete que, antes, você nunca teve coragem de pegar.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

coisas

quem diz "mas as coisas são assim! o que se há de fazer?' não entende que as coisas são assim por causa de quem diz que as coisas são assim. as coisas não são nem não são. as coisas, coitadas, nem estão interessadas nisso.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

etimologia

a etimologia é a memória amante da língua. são as palavras em estado de nascimento, próximas das coisas, menos marcadas pelas abstrações que as submetem a megalomanías ideológicas e pessoais. ainda concretas, elas, amorosamente, se conectam umas às outras e nos expandem para mais sensações e menos pensamentos.