sexta-feira, 23 de outubro de 2015

sardinha

tenho problemas com sequências. coisas que começam, se desenvolvem e terminam. coisas com coisas. coisas que são causas de certas consequências e vice-versa. parágrafos com ideias principais. conclusões. e por quê? porque não conheço nada assim, nem na mais intensa e luminosa - ou obscura - imaginação. menos ainda na vida. na vida, e mais ainda no sonho, o tempo se espreme, se alastra, se comprime e se propaga. mas não segue em linha reta. nada continua como começou, nem mesmo começa antes de terminar. aliás, nada termina. não se pode, pelas consequências, determinar a causa e estas se proliferam de acordo com necessidades, desejos, medos e uma memória falha e que só faz, quanto mais o tempo passa, puxar a brasa para sua sardinha. ou a sardinha para sua brasa, nem sei.

sábado, 17 de outubro de 2015

pão

aleluia, aleluia, farinha na cuia, repetia o tradutor de guimarães rosa, incansavelmente, o dia inteiro, sem conseguir achar a equivalente em alemão. pudera, pois se para nenhuma palavra existe correspondência exata, ainda mais para isso. foi quando à noite, no banheiro, começaram a ouvir um murmúrio lento: hosana, hosana, brot is mana. e foi assim, com o sonho do pão transformado em maná, que fez-se o milagre da versão de uma língua para a outra. e como na língua das línguas, o homem nomeou as coisas com as palavras.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

tempo

por que escolhemos o verbo "passar" para o tempo? o que é passar? transcorrer, mudar, mover-se? nunca ninguém viu o tempo operar estas ações. somente vemos os seres e lugares sofrerem-nas. mas queremos que seja algo que opera, neles, as mudanças e, de alguma forma, ao atribuir tudo ao tempo, recusamo-nos a aceitar que somos nós que passamos, que estamos passando, vamos passar até não podermos mais dizer que está passando, porque passou. para o tempo, nossa invenção para sentir a morte - e, com ela, a vida - talvez possamos dizer que ele é. o quê, não sabemos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

pai

pai, você lembra das coisas que você falava? entrava numa consulta médica e dizia: urina, normal e fezes, normal. se um amigo chegasse em casa, você chamava e perguntava: o que acha de conjuntura política e econômica internacional? quando você ficava chateado, assobiava sozinho e suspirava: shnatse ha winter! se eu dizia que nunca faria alguma coisa, você vinha: nunca diga dessa água não beberei. e tinha os outros quinhentos e quem não tem quinhentos mil dólares e a piada do e se eu fechar a janela? vai fazer menos frio lá fora? você lembra, pai? não, é claro que você não lembra.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

letra

num túmulo qualquer, um nome estava incompleto. alguém passou por lá e completou o nome, acrescentando, com massinha, a letra que faltava. é uma letra "e". agora o nome está lá, inteiro e essa letra zela, vela e guarda por nós, sempre incompletos, exilados, juízes sem verdade nem justiça. cuide de nós, letra "e", para que sejamos menos certos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

bem

sonhei com uma menininha, no fundo de um carro, dizendo, enquanto brincava com um jogo de montar: a cozinha do bem inconcebível não está nas coisas, nem nas ações ou nas ideias, mas nas palavras.
acorde-se com um barulho desses.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

forma

recuar também pode ser uma forma de avançar. entregar-se também pode ser uma forma de resistir. negar também pode ser uma forma de dar. dar também pode ser uma forma de possuir. ficar também pode ser uma forma de ir.